Primeiro, o olhar do bom dia, acompanhado do estalar do beijo na testa; depois o olhar preocupado e longe, seguido de um riso sem graça, depois do café; o olhar despercebido, depois de um outro acontecido qualquer; o olhar aflito, depois do longo silêncio que, naquele dia, chegava a doer os ossos; enfim o olhar seco e choroso, acompanhado de um abraço forte que nos demos amedrontados, que nos demos enganados. Achávamos que se nos abraçassemos tão forte e tão demorado, recuperaríamos aquilo que havíamos perdido. Realmente achávamos que, por apertar tanto os nossos corpos, chegaríamos num estágio superior, algo como um abraço de almas. Que nada. Por fim, o olhar profundo, com um traço de pena estampado no rosto, e com um choro entalado por dentro, que não refletia sequer um único soluço na sua cara pálida ou na minha queimada de sol. De repente, o desentrelaçar dos nossos dedos abafava o último suspiro do laço que ainda ligava nossos corpos. Depois veio o cheiro de mala velha e mofada deitando sobre a cama; o gemido de passos largos sobre as tábuas velhas da sala; o barulho inconfundível de motor ligado. O último olhar, indecifrável, foi trocado entre a porta arreganhada e a janela entreaberta do carro, seguido de um ruído de automóvel desaparecendo, gradativamente, pela estrada. Depois o soluço. E a lágrima. Não nos foi necessária uma palavra sequer. Estava simplesmente terminado, e sabíamos. Mas é como se a parte humana, destinada a criar laços, não se encaixa-se nesse mundo que faz tão necessário o desapego. Por mais que saibamos - e como - dessa natureza de metamorfoses e perdas que é a vida, fica sempre uma angústia no olhar e um vazio no peito, porque dói quando a estranheza toma conta, porque dói - e dói muito - quando duas almas não conseguem mais se reconhecer, e se perdem.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
perene
O barranco desabou na estrada onde seguíamos. Mais um barranco desabado. Mais um laço soterrado. Mas a vida é assim mesmo: laços são soterrados todos os dias, impedidos de seguir. Mas não se entristeça não, meu bem, pois se for verdadeiro é resgatado um dia. Mesmo com a terra cortando a pele e a areia arranhando os olhos. Alguns laços simplesmente continuam, inda que noutros rostos, noutros risos, noutros olhos, noutros tempos...
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Os dois ainda se perguntavam se um não iria abandonar o outro. Na verdade tudo não passava de frutos do desamor passado. É que o desamor também deixa frutos, daqueles amargos que só os que não se submetem a praticá-lo de volta provam. E fica essa cisma mesmo. Se o gosto vai voltar. Se vai ser tão amargo quanto da última vez... Mas o que as pessoas não sabem é que em todos há uma fonte doce que não seca. Seja nos olhos de mel, no toque de algodão doce, nas palavras com casquinha de chocolate que chegam até o ouvido... E não importa quantos potes de pimenta foram jogados nessa fonte, nem por quanto tempo ela se manteve amarga, ela sempre se adoça novamente. E também não sabem que, depois de terem provado o amargo, o doce fica tão doce que tem gosto de magia, de sonho, de pedaço de nuvem mais macio lá do céu.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
o eterno
E nada do que se pode tocar, nem nada do que se pode ver reflete eternidade. O que escorre para a eternidade é aquilo que temos e não conseguimos entender bem, aquilo que sentimos e não sabemos atribuir nome, aquilo que não podemos ver nem tocar, mas sentir em cada átomo do nosso corpo. É o subjetivo mundo próprio de cada pessoa. São os sentimentos confusos. É a liberdade, a paz, o amor, e quase mais nada.
domingo, 31 de julho de 2011
Sempre fui esse poço fundo de interrogações e esse buraco negro de respostas. Sempre fui dessa coisa assombrosa de acordar lagarta e ir dormir mariposa. Sempre fui dessa coisa assustadora de sentir e sofrer muito o momento, que é a minha forma de viver, que é a minha forma de intensidade. Nunca fui certa. Sempre fui meio entre extremos, meio avussa, meio quieta, meio louca. Eu sempre fui assim meio querer o que está a quilômetros da ponta dos meus dedos. Sempre fui assim meio querer enfiar de qualquer jeito na minha vida o que não cabe no meu mundo. Então aparece alguém assim, que cabe tão bem e tão certo nos
meus braços, na minha vida e no meu mundo. E ainda assim meu pensamento tenta distorcer e me convencer de que não está cabendo mais. Aí acontece de tudo ficar meio assim aos trampos, completamente de pernas pr'o ar. Mas eu continuo andando, tropeçando, andando e correndo até perder a noção do espaço. Até dar de cara com você lá na frente da minha estrada. Até cair nos seus braços e me sentir incrívelmente protegida dos meus nãos. Certo é algo que o nosso amor certamente nunca foi para mim. Assim como nada é. E meu pensamento até tenta me empurrar e, me deixando assustada, fazer com que eu corra sem rumo. Mas a sua mão me segura forte, e me puxa tão doce e tão firme que tudo começa a fazer absurdamente o maior sentido. E então eu fico, assim, tão sua como nunca havia sido.
meus braços, na minha vida e no meu mundo. E ainda assim meu pensamento tenta distorcer e me convencer de que não está cabendo mais. Aí acontece de tudo ficar meio assim aos trampos, completamente de pernas pr'o ar. Mas eu continuo andando, tropeçando, andando e correndo até perder a noção do espaço. Até dar de cara com você lá na frente da minha estrada. Até cair nos seus braços e me sentir incrívelmente protegida dos meus nãos. Certo é algo que o nosso amor certamente nunca foi para mim. Assim como nada é. E meu pensamento até tenta me empurrar e, me deixando assustada, fazer com que eu corra sem rumo. Mas a sua mão me segura forte, e me puxa tão doce e tão firme que tudo começa a fazer absurdamente o maior sentido. E então eu fico, assim, tão sua como nunca havia sido.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
ausência que pesa
Acontece que contigo por perto meu corpo salta, transcede, e chora. É por isso que é a distância o maior problema. És tu meu maior problema, menino. Se longe até consigo enganar o olhar, o choro, o pensamento. Mas quando perto, tu só podes ter um imã, menino, só pode ser. Por favor, diga-me como fugir se até o meu silêncio sussurra teu nome. Se és a saudade que tenho do nunca tido. Se és o culpado desta melancolia que chega às vezes do nada e me desfarela por inteira. E me deixas só o pó. Me segura, menino, que juro: não aguento mais suportar, além do peso meu, o teu; pois existe tanto de ti em mim que não aguento mais. Existe tanto, tanto, que me assusto. Me segura, menino, que não é seguro te amar assim. E tanto. Vem e traz todo o teu medo e a tua loucura que eu acolho, menino. Ou vem e traz o ponto final pr'as minhas palavras que são tão mais tuas do que minhas. Não importa como, nem pra que, mas vem, menino, vem. Vem preencher essa tua ausência que desde sempre preenche a minha vida. Vem tocar tua música e fazer-me dormir. Vem cantar pra mim. Vem pra perto do meu ouvido e ri teu riso, menino. Vem e traz a minha paz. Mas corre. Vem logo que o meu silêncio eterno tem pressa, embora seja eternamente teu. Vem, nem que seja para varreres para algum canto da sala escura o meu pó. Não importa como, nem pra que, mas vem, menino, vem.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
(...) E pensava nas milhares de palavras pronunciadas e perdidas no ar. Ou nos milhares de outros pensamentos que dançavam dentro da cabeça, faziam brilhar os olhos e depois, sem porque, sem querer, eram perdidos. Ah! se existisse alguma forma de prender aqueles fragmentos, alguma forma de acorrentar aqueles pensamentos até pelo menos a hora de gravá-los num lugar qualquer, mas aquelas palavras foram feitas para atiçar a imaginação, brilhar os olhos, esquentar o peito e voar. Eram fragmentos da alma, da liberdade sonhada, do infinito particular que existe em cada um de nós. E então voavam como voam os pássaros, como voam os anjos, como voa a pluma branca pela brisa lenta que circula o ar e depois cai, toca o chão duro da realidade, e só.
sábado, 21 de maio de 2011
Um brinde aos sonhadores, apaixonados, com fome de mundo. Aos que não se escondem nem se habituam ao uso de máscaras, mas que mostram o rosto e botam a cara a tapa, crua mesmo, pura, sem maquiagem ou requinte. Um brinde aos que sonham; aos que arriscam; aos que já se apaixonaram, tiveram fome de mundo, botaram a cara a tapa e cabaram com o rosto imenso, inchado, dolorido e vermelho de tanto apanhar. Aos que, em uma aconchegante tarde primaveril, foram docemente convidados para entrarem, se assentarem e tomarem o chá amargo do desamor. São esses, as vítimas dessa bebida impiedosa, os eternos suportadores da sua enchaqueca, os paralíticos por dentro e que ainda assim caminham. São esses, os interiormente aflitos, que por causa do desamor passado caminham com calma; pensamento longe; pé firme no freio; olhar atento para o desvio, caso apareça algum novo buraco; com palavras guardadas em alguma gaveta por dentro, esperando o possível momento certo de pronunciá-las. Mas são os mesmos que, do nada, explodem: apressam o passo, pisam no acelerador e deixam as palavras livres, saltando como um grito da alma. Um brinde a esses que bebem dia e noite da fonte da vida. Bebida essa imprevisível, sem gosto nem cheiro específico. A esses que são, acima de tudo, gente. Gente que não se economiza. Gente que se permite ser e viver apesar de. Gente que se abre e se deixa tocar. Gente que toca. Gente que perfuma o mundo. Gente que desabroxa. Gente que sonha. Gente que ama.
Do jeito que for.
domingo, 15 de maio de 2011
E muitas vezes não suportava sequer o próprio peso de ser. E muitas vezes tinha dúvidas até do próprio cheiro, do próprio nome, do próprio chão. Viver tem dessas coisas. São tantos pedaços de nós mesmos que ao longo da vida são vendidos, trocados, doados, esquecidos no porão de alguma alma e nunca mais vistos, abandonados na porta de uma casa qualquer, por não termos mais força para carregar aquilo conosco ou coragem para manter aquilo sob o nosso olhar.
E não há resposta imediata, ainda que a mudança esteja sempre presente. E ao contrário do que é produzido a cada minuto neste mundo, não existem regras nem manuais quando se trata de pessoas. Tão homogêneas e ao mesmo tempo tão únicas. Tão perceptíveis e ao mesmo tempo tão cheias de mistério. Se a vida costuma ser astuciosa, meu amigo, que posso eu dizer da astúcia de uma alma. A cada dia tão mais cheia de buracos e rabiscos e remendas e retalhos...
Ninguém avisou que alguns buracos ficam irrepreenchíveis para sempre, nem que alguns rabiscos não saem por nada. Ninguém avisou também que o amor não é bem aquele trevo de quatro folhas que você vai encontrar num desses jardins esquecidos - ou numa dessas esquinas qualquer -, apenas uma vez na vida. O amor está em tudo: num botão de flor prestes a desabrochar, numa veloz estrela cadente contornando o céu, num abraço dado por impulso, num sorriso que você recebeu de volta de uma criança, naquela gargalhada gostosa de quem a gente ama que chega a fazer cócegas na nossa alma... Chega a ser ingênuo pensar que esse trevo de quatro folhas estará à sua espera apenas uma única vez na vida.
Amor, amor de verdade, requer carinho, atenção, compromisso, compreensão e cuidado, muito cuidado. Mas é ele a agulha que auxilia, au-xi-li-a na costura dos retalhos na alma. Auxilia, porque só amor não basta. Tudo nessa vida é contradição, é antítese, e o amor não escapa. Tão borbulhante de felicidade, tão cheio de uma vontade assustadora de viver, tão forte para nos reerguer o corpo e ao mesmo tempo tão sensível, tão frágil, tão humanamente emoldurado.
Mas, por sorte, toda alma, sem exceção, é cheia de vontade de fazer arte, de emoldurar esse trevo de quatro folhas, de desabrochar para a vida, de desabrochar para o amor; apesar dos buracos e das remendas, apesar dos pesares, apesar dos, apesar das, apesar de. Por sorte.
E não há resposta imediata, ainda que a mudança esteja sempre presente. E ao contrário do que é produzido a cada minuto neste mundo, não existem regras nem manuais quando se trata de pessoas. Tão homogêneas e ao mesmo tempo tão únicas. Tão perceptíveis e ao mesmo tempo tão cheias de mistério. Se a vida costuma ser astuciosa, meu amigo, que posso eu dizer da astúcia de uma alma. A cada dia tão mais cheia de buracos e rabiscos e remendas e retalhos...
Ninguém avisou que alguns buracos ficam irrepreenchíveis para sempre, nem que alguns rabiscos não saem por nada. Ninguém avisou também que o amor não é bem aquele trevo de quatro folhas que você vai encontrar num desses jardins esquecidos - ou numa dessas esquinas qualquer -, apenas uma vez na vida. O amor está em tudo: num botão de flor prestes a desabrochar, numa veloz estrela cadente contornando o céu, num abraço dado por impulso, num sorriso que você recebeu de volta de uma criança, naquela gargalhada gostosa de quem a gente ama que chega a fazer cócegas na nossa alma... Chega a ser ingênuo pensar que esse trevo de quatro folhas estará à sua espera apenas uma única vez na vida.
Amor, amor de verdade, requer carinho, atenção, compromisso, compreensão e cuidado, muito cuidado. Mas é ele a agulha que auxilia, au-xi-li-a na costura dos retalhos na alma. Auxilia, porque só amor não basta. Tudo nessa vida é contradição, é antítese, e o amor não escapa. Tão borbulhante de felicidade, tão cheio de uma vontade assustadora de viver, tão forte para nos reerguer o corpo e ao mesmo tempo tão sensível, tão frágil, tão humanamente emoldurado.
Mas, por sorte, toda alma, sem exceção, é cheia de vontade de fazer arte, de emoldurar esse trevo de quatro folhas, de desabrochar para a vida, de desabrochar para o amor; apesar dos buracos e das remendas, apesar dos pesares, apesar dos, apesar das, apesar de. Por sorte.
quarta-feira, 30 de março de 2011
Minha vida desenrolava bem na frente dos meus olhos, e, dentro de mim, um medo que me impedia de tocá-la, como se ao tocá-la eu pudesse me queimar, como se ao tocá-la eu sairia ferida.
Então permanecia ali, à mercê da minha própria história, coadjuvante do meu próprio filme, expectadora da minha própria vida. Enrolava meu corpo em alguns sonhos e sentimentos passados, como se eles fossem me servir de isolante contra todo o mal que sussurrava, me chamando, atrás de todo sorriso que meus olhos vissem. Mas até quando? Até quando eu ficaria ali, afastada de tudo, tentando me proteger da minha própria vida, sem saber que aquilo protegia apenas a minha parte externa, enquanto por dentro havia uma parte, uma fatia, um lado mais importante que estava desprotegido de tudo?
E eu continuava fechando e abrindo os olhos, respirando e respirando novamente, como se estivesse viva e bem no meio daquela coisa toda que se passava frente aos meus olhos. Mas o capítulo não se repetia todos os dias. Vez ou outra eu abria os olhos e me jogava naquela coisa sem medo algum, tirava a roupa de coadjuvante, entrava na peça como atriz principal e sem ensaiar sequer uma frase - porque de tão audaciosa que é a vida, nunca me havia acontecido algo exatamente como eu havia ensaiado ou imaginado antes. Vez ou outra eu fugia daquela gaiola e me permitia voar para onde o vento quisesse me levar, mesmo que em algumas tentativas de voo me acontecesse de perder o equilíbrio e cair.
Acontece que alguma coisa cheirando a passado me obriga sempre a ir devagar, e eu o faço: começo sempre pisando no freio, desviando dos buracos, seguindo à risca cada etapa, guardando cada palavra para um possível momento certo... Mas aí do nada, explodo: tiro a venda dos olhos, piso no acelerador e deixo as palavras saírem sem medo, sem erro, para perfumar o ar com o perfume daquela minha fatia desprotegida lá de dentro.
Porque vez ou outra é preciso se entregar por inteiro: cabeça, mão, olhos, coração e aquele pé que ficou meio para trás também. Porque vez ou outra temos que reconhecer a imensidão que abrigamos nessa parte importante de dentro, e então permitir o mundo em você e permitir-se no mundo, entregar-se sem economia alguma, porque a alma é infinita. E eu, mesmo às vezes afastada de tudo e com medo de integrar o mundo, reconhecia isso. Porque no fundo eu era apenas uma fruta mordida e oxidada por ter sido exposta ao mundo; uma fragrância, de rosa pisoteada; uma desafinada, mais uma menina desafinada, na qual também existia, lá pelas vizinhanças da alma, um coração que batia incansavelmente em busca da sintonia perfeita com o mundo.
Então permanecia ali, à mercê da minha própria história, coadjuvante do meu próprio filme, expectadora da minha própria vida. Enrolava meu corpo em alguns sonhos e sentimentos passados, como se eles fossem me servir de isolante contra todo o mal que sussurrava, me chamando, atrás de todo sorriso que meus olhos vissem. Mas até quando? Até quando eu ficaria ali, afastada de tudo, tentando me proteger da minha própria vida, sem saber que aquilo protegia apenas a minha parte externa, enquanto por dentro havia uma parte, uma fatia, um lado mais importante que estava desprotegido de tudo?
E eu continuava fechando e abrindo os olhos, respirando e respirando novamente, como se estivesse viva e bem no meio daquela coisa toda que se passava frente aos meus olhos. Mas o capítulo não se repetia todos os dias. Vez ou outra eu abria os olhos e me jogava naquela coisa sem medo algum, tirava a roupa de coadjuvante, entrava na peça como atriz principal e sem ensaiar sequer uma frase - porque de tão audaciosa que é a vida, nunca me havia acontecido algo exatamente como eu havia ensaiado ou imaginado antes. Vez ou outra eu fugia daquela gaiola e me permitia voar para onde o vento quisesse me levar, mesmo que em algumas tentativas de voo me acontecesse de perder o equilíbrio e cair.
Acontece que alguma coisa cheirando a passado me obriga sempre a ir devagar, e eu o faço: começo sempre pisando no freio, desviando dos buracos, seguindo à risca cada etapa, guardando cada palavra para um possível momento certo... Mas aí do nada, explodo: tiro a venda dos olhos, piso no acelerador e deixo as palavras saírem sem medo, sem erro, para perfumar o ar com o perfume daquela minha fatia desprotegida lá de dentro.
Porque vez ou outra é preciso se entregar por inteiro: cabeça, mão, olhos, coração e aquele pé que ficou meio para trás também. Porque vez ou outra temos que reconhecer a imensidão que abrigamos nessa parte importante de dentro, e então permitir o mundo em você e permitir-se no mundo, entregar-se sem economia alguma, porque a alma é infinita. E eu, mesmo às vezes afastada de tudo e com medo de integrar o mundo, reconhecia isso. Porque no fundo eu era apenas uma fruta mordida e oxidada por ter sido exposta ao mundo; uma fragrância, de rosa pisoteada; uma desafinada, mais uma menina desafinada, na qual também existia, lá pelas vizinhanças da alma, um coração que batia incansavelmente em busca da sintonia perfeita com o mundo.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Você simplesmente não pode exigir que uma pessoa lhe ame verdadeira e intensamente sem que você também se dedique a ela da mesma maneira. Se você soltar algum amigo ou algum amor, ele vira folha e o vento o leva para longe, tão longe que talvez nem seja mais alcançado. Não devemos confundir aquela história de que temos de deixar o que amamos livre e, caso volte, é nosso, caso contrário, nunca foi. Não podemos algemar as pessoas que amamos, não podemos ajustá-las ao jeito que mais nos agrada nem mesmo impedi-las de seguirem seu caminho, mas são sempre dois humanos e um laço. Dois humanos naturalmente passíveis de cometer erros e destinados ao esquecimento, e entre eles, um laço que os livrará desse esquecimento, e entre eles, um laço que, como flor, deve sempre ser regado, adubado, e podado algumas vezes para que mesmo com o tempo e as modificações do mesmo, continue belo de se ver e agradável de se sentir. Tem gente que vai admirar a flor sempre, mas se esquece de adubá-la. Não se surpreenda se numa dessas visitas a encontrar morta. Não é porque ela não era sua. Ela era sua, mas você a deixou voar.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
desejo de uma vida inteira
![]() |
Com que eu, ao acordar,
Envolvida em teus braços visse
Teus olhos postos a me olhar
E que num rastro de tempo
Mistérios brotassem
E teus olhos nos meus
E meus olhos nos teus
Enfim se embriagassem
Ah! Se em seguida teus lábios se abrissem
E no teu rosto inda tomado pelo sono
O mais envolvente sorriso meus olhos vissem
Serias enfim dos meus versos o dono
E seu amor seria o bastante
Para que o meu amor não moresse
Seria a cura
O alimento
A fonte que sustentaria-me até às entranhas
E manteria-me sempre a florescer
E seu amor seria o bastante
Para que o meu amor não moresse
Seria a cura
O alimento
A fonte que irrigaria teus olhos
Quando para a tua memória eu me mudasse
E somente nela eu habitasse
E por fim chegaria o dia
Em que apenas silêncio existiria
Faces, palavras e invernos teriam passado
E apenas um olhar permanecido
Esse mesmo olhar que faria
Com que um para o outro enfim voltaria
Para sempre
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domingo, 13 de fevereiro de 2011
Sempre andava pelo mundo pensando que abrigava o problema em mim
Eu sempre enjoava das pessoas
Agora percebo que enjoo das pessoas que não entram na minha vida por inteiro
Não precisa estar presente todo o tempo de corpo
Mas precisa entrar sempre inteiro
Inteiro o suficiente para conquistar-me a alma
Não, o problema não era comigo
Isso se for problema querer a verdade em parceria com o amor
Nunca fui de sustentar-me de desejo
Desejo vem sempre
E passa...
Mas o amor
O amor de verdade
Ele tem aparecido tão pouco
E tem sido compartilhado com tão poucos
E então meu coração se tornou seletivo
De poucos também
Se queres que eu não te esqueça
Que eu não enjoe de você
Eis o meu segredo:
Me queira de corpo,
Mas também, e principalmente, me queira de alma
Porque meu corpo é frágil
Humano
Passageiro
Como tudo o que nele se acampa
Mas minha alma é vasta
Pouco alcançável
Eterna
Como tudo o que nela se tatua
Eu sempre enjoava das pessoas
Agora percebo que enjoo das pessoas que não entram na minha vida por inteiro
Não precisa estar presente todo o tempo de corpo
Mas precisa entrar sempre inteiro
Inteiro o suficiente para conquistar-me a alma
Não, o problema não era comigo
Isso se for problema querer a verdade em parceria com o amor
Nunca fui de sustentar-me de desejo
Desejo vem sempre
E passa...
Mas o amor
O amor de verdade
Ele tem aparecido tão pouco
E tem sido compartilhado com tão poucos
E então meu coração se tornou seletivo
De poucos também
Se queres que eu não te esqueça
Que eu não enjoe de você
Eis o meu segredo:
Me queira de corpo,
Mas também, e principalmente, me queira de alma
Porque meu corpo é frágil
Humano
Passageiro
Como tudo o que nele se acampa
Mas minha alma é vasta
Pouco alcançável
Eterna
Como tudo o que nela se tatua
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