domingo, 13 de julho de 2014

Estirpe

o primeiro escrito de palavras sempre

E nessa falta de porquê 
Carregada de querer
Prá você 
Apenas essa folha em branco
Assim mesmo: 
Lisa 
Fina 
Pálida 
Só o amor estampado! 
Mais nada... 
É só 
Um breve afago na alma. 
Enquanto não chego
Enquanto não chegas 
Enfim...
Janeiro, 2013.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Nunca deixar de ouvir... com outros olhos!

        Felizmente eu cresci com as pipas, os algodões doce, as cantigas de roda e os pés descalços cambaleando na rua até o despontar da lua. Felizmente eu nasci com um céu de flores me contornando inteira e um jardim de sonhos me escorrendo dos olhos. Felizmente Deus me fez tudo com uma doçura incomunicável que faz com que, ainda que a vida me desponte áspera, eu a toque lisa; ainda que o dia me chame aos berros, eu, na minha paz intocável, o viva na serenidade de quem se sente parte de tudo, de quem dança com as árvores sob a mesma música, de quem tem pulsando dentro das veias o mesmo amor que pulsa nos seres mais desapercebidos. 
Sempre gostei de pensar que sou um coração batendo no mundo. Pensar assim, me aproxima da minha pequenez humana e me deixa mais perto do que, pela minha lei, deveria fazer brilhar os olhos. Como Manoel de Barros, eu sou uma apanhadora de desperdícios, uma eterna apanhadora de desperdícios; uma pra sempre apaixonada pelos restos que os outros vão deixando pelos caminhos e que, a mim, chegam como uma eterna novidade; e que, a mim, chegam doce, perfumados, carregados de poesia. Quase nunca é necessária a prova para que eu os perceba assim: a vida me encanta simplesmente por ser vida, por ser viva; e os desperdícios que encontro pelo caminho me ganham pelo olhar. 


sábado, 31 de maio de 2014

O Grito do Mundo


Era tarde, Clara permanecia entregue ao silêncio do seu quarto, com pensamentos que se mexiam em vão e com o olhar corrido em detalhes que nem eram vistos, enquanto o dia não despertava e o ônibus das seis não tomava partida. A noite lá fora tentava resistir no silêncio, enquanto vozes desconhecidas gritavam suas insatisfações, injustiças e lamúrias, reais ou inventadas. Engano pensar que o barulho cessaria ao despertar do dia: intensificaria. Mas o barulho pela manhã refletiria risos criados, conversas repetidas, afazeres pré-determinados que encobririam os gritos ecoados poucas horas antes. Onde estariam as vozes que os ecoaram? Em uma ressaca interminável? Encobertas por pontes e cobertores imundos?
Clara vagamente se lembrava de outra viagem, outro sábado, outro ônibus das seis quase em seu destino final... A voz de uma mulher que gritava debaixo da janela, sob o sol estridente: "Olha a água! Água a R$1,00 real." A boca dela era do tamanho da fome do mundo. O grito desesperado e ensurdecedor, como quem já não consegue enxergar esperança... E o susto ao ver a cena pela janela, agora desperto em um pensamento que se mexe não mais em vão, parece fazer mais sentido. As mesmas vozes que gritaram há pouco debaixo da janela do quarto; todas essas bocas que gritam, têm fome! - pensou Clara. Todas essas bocas que riem e conversam e disfarçam e abafam as lamúrias noturnas com seus barulhos cotidianos, também têm fome. Arriscaria até mesmo a dizer que todas essas bocas possuem um mesmo tipo de fome, de sede, de necessidade: amor.

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