terça-feira, 30 de julho de 2013

Porta entreaberta


A porta entreaberta me assusta
Me apreende
Me revela.
Meu olhar fixado naquela brecha pequena
Tem como companhia um sorriso desconexo
Que não reflete sentimento algum
Nem mesmo pena.
O vazio por detrás daquela porta me ganha aos poucos
E aos poucos percebo:
Nada é tão vazio quanto parece
Por detrás daquela porta entreaberta, existe muito
Coisas estáticas, sem movimento, sem ruído, sem vida
Mas em algum canto há vida
Há vida nos passos que ruídam na calçada
Há vida no murmuro do cão que se encolhe no sereno
Há vida na estrela que cintila alto pela janela
Há vida até mesmo no sorriso desconexo que há pouco me fugiu pela boca
Ainda que sem sentido
Ainda que não sentido
Ainda assim...
A porta entreaberta me apreende,
Porque gosto do que não se mostra inteiro
Do que não derrama sua beleza
Do que insiste em ser mistério
Me apreende,
Porque descobrir numa brecha, com um canto do olho, o que tem por detrás daquela porta, é descobrir a mim mesma
É mergulhar nas minhas brechas e ir me achando cada vez mais cheia
É achar num canto dito vazio, um ruído qualquer
É perceber que no silêncio e na parada, há vida
É descobrir que na minha serenidade e silêncio aparente, se abriga o grito do mundo
É decifrar que assim como aquela porta é inteira, sem precisar se mostrar inteira, eu sou.
Eu sou.
Sim.
E não preciso de uma porta certeira e inteiramente aberta
Qualquer brecha pequena e que abrigue um rastro de beleza
É suficiente para me ganhar
Para fazer eu entrar
Para me arrancar um sorriso
Qualquer meio ruído de vida me tem inteira
E não me assusta mais o silêncio nem o mistério
Pois também o sou.

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