quinta-feira, 30 de setembro de 2010

pedaço meu


A vida é feita de fases. Dia a dia. Tijolo a tijolo. Passo a passo. E nisso combino com a vida. Sou de fases. Ora uma, ora outra... várias. Mas várias de uma só. Tenho um corpo quieto que também segue a regra do dia a dia, tijolo a tijolo e passo a passo. Mas é movido por sensações, por sentimentos, por alma. E por ter esse combustível, às vezes quer ser ligeiro, correr contra o tempo, dar um passo longo demais. O que costuma me levar à queda e me atrasar um tijolo, um passo, um dia. Tenho essa mania de dona do meu mundo, essa impressão de pernas mais longas que o real e essa certeza de que vou dar conta sempre. Mas às vezes falho. Ou sempre... Ah se em mim aquietasse também essa pressa de viver... Essa vontade de abraçar o mundo e engolir a vida numa mordida só. Sou um pouco muito contraditória. Dia acordo morta, dia intensamente viva; ora harmonicamente flutuo com a música, ora prefiro indiscutivelmente o silêncio; as pessoas ora me dão prazer ora nojo; ora sou levada pelo medo, ora absurdamente impulsiva de tanta coragem... Mas, por favor, existe uma ponte enorme entre contradição e falsidade e que deve ser ressaltada. Se por um acaso me ver rir ou chorar, saiba que o faço com todos os músculos e todas as células que possuo. E o faço porque há a necessidade de fazê-lo. Só vou rir do que realmente me despertar vontade de rir e chorar do que realmente me ferir com alguma intensidade, seja
ela qual for. E para o meu silêncio e o meu não peço respeito, pois são, na maioria das vezes, palavras na ponta da língua ou um delicioso sim disfarçado, esperando apenas um pouco mais de vontade de quem os chama, um pouco mais de insistência de quem os espera. Porque às vezes dou um passo para trás por vontade própria. Para ver se o chão é seguro mesmo ou se é apenas mais uma armadilha no caminho da vida. Sem contar que sou mistério. Todos somos. E imensa... Ah, tão imensa que chego a me perder em mim mesma às vezes. Mas já tenho uma certa intimidade comigo mesma, e me encontro. Sempre me encontro.

prece

Coragem para eu suportar o aparentemente não suportável.
Coragem para eu fazer da dor apenas uma coadjuvante diante
de tanta alegria esperando pelo papel principal.
Coragem para eu dizer sim. Coragem para eu viver, meu Deus.

domingo, 5 de setembro de 2010

alma despida


Cada gota de chuva que cai sobre o meu corpo leva um pouco da casca que me protege e me deixa mais vulnerável, mais transparente. Só tenho medo da profundeza dessa transpareza. Dos lugares onde habitam os sentimentos mais secretos que ela pode revelar. Eu preciso do meu enigma, da minha pontinha de mistério para me ser.

sábado, 4 de setembro de 2010

(...) Mas teve uma noite em que você se recusou a ir lá. Mesmo sem saber que era para me inventar uma historinha como quando eu era criança. As lágrimas correram para os meus olhos com um gasto de apenas um segundo. Conversei mais rápido ainda com elas e consegui convencê-las de voltarem para onde vieram, mesmo que tivessem que se reproduzir e transbordarem em demasia  num momento futuro. Brotaram apenas duas lágrimas nos meus olhos: uma em cada olho. Dois poços de teimosia. Também pudera! olha só de quem tinham saído... Eu que sempre carregara uma pontinha de acidez, de gênio forte e teimosia. Perdoei-as, mas passei logo os dedos nos olhos para que sua teimosia não se transformasse em atrevimento e elas me escapassem pela face. Levemente me alegrei, porque minha mãe me havia recusado a vinda, mesmo sem saber para o quê. Disse que estava com alguma coisa no nariz que nem me preocupei em dar atenção, porque sabia que não se tratava de nada além de má vontade e preguiça de se levantar da cama quentinha num clima frio. Quão hipócrita eu seria se tivesse me revoltado quanto a isso. Não é que carrego má vontade comigo, mas uma preguiça que me enche e às vezes chega até a estourar. Já que minha mãe havia se recusado a ir até o meu quarto, me dar um beijo de boa noite e me inventar uma história - como fazia quando eu ainda era pequena -, resolvi inventar eu mesma a minha história. O beijo de boa noite me seria recompensado com uma leve cócegas aqui no meu peito, que me arrancaria um breve e profundo sorriso ao terminar a minha história. O boa noite eu desejaria aos pequenos pedacinhos da minha própria composição. Tanto corpo quanto alma dessa vez. Fiquei surpresa com a minha decisão de escrever a minha própria história. Dependência demais sufoca. Até se recusando minha mãe me ensinava algo. Conformada, girei metade de uma meia volta em direção ao meu quarto. Metade porque no meio do segundo ao fundo meu pai sussurrava alguma coisa. Voltei para ver o que era: ele pedira para que eu pegasse uma blusa para ele. Enquanto se acomodava, notei um grau de estresse no seu rosto sério e nos seus olhos nem um pouco relaxados. Dei um beijo em sua face e pedi para que se acalmasse. Por fim, consegui dar minha meia volta completa. Já estava atrasada para a minha história. Mas me havia esquecido de algo: era do beijo de minha mãe. Voltei e disse que ela não ganharia beijo, porque havia se prometido e depois se recusado a ir ao meu quarto antes de que eu adormecesse. A desculpa do nariz de novo. Agora sim: dei meia volta e segui rumo ao meu quarto. Meia volta que mais me pareceu uma volta inteira no meu imenso mundo. Refleti. Lá estava eu, agindo como eu agia quando era pequena, quando me negavam alguma guloseima. "Passado demais sufoca também, viu?!" Fiz questão de lembrar a mim mesma. Entrei no meu quarto. Me sentei. E aqui estou eu. Com a intenção de inventar uma história, tipo aquelas de Maria e Joãozinho que eram irmãos e iam passar as férias com a vovó no campo, como minha mãe me contava. Mas só me sai narração-descritiva de alguma coisa que me pesa aqui dentro. Só sai história de mim mesma. Mas, sabe, até que é bom. Gosto dessa liberdade de poder escrever o que quero e quando quero. Não tenho compromisso nenhum com ninguém além de mim mesma, e isso ajuda a aliviar. Ajuda a aliviar o peso dessa coisa que me pesa por dentro. Essa coisa sem nome, sem som e sem cheiro que convive comigo e nem me assusta mais. Agora com o peito um pouco mais leve até consigo sentir as cócegas, por dentro, que me compensam o beijo não sentido. Agora com a alma um pouco mais leve posso sentir a vida, esse substantivo complexo, carregado de magia. Dei um leve sorriso com os olhos fechados, como se estivesse em contato mais íntimo com o chamado interior e o superior que lá habita. E como se no silêncio de um segundo, agradecesse por tudo. "-Ai" - mais uma cosquinha aqui de lado. Acho que a história tem uma reticências aqui. Porque o ponto é um limitante de histórias que nunca se acabam verdadeiramente. Sempre tem um pó esquecido em algum cantinho, um cisco escondido nas entrelinhas ou até mesmo um gran finale que se perdeu em meio aos pensamentos rápidos. Então, boa noite...!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

coragem algemada

Lambuso de água o rosto. Me encaro no espelho. Quantas fotos por trás desses olhos, meu Deus, nunca reveladas. E essas lágrimas secas, relembrando recomeços infinitos. Desço do salto, me jogo na cama, ligo a TV. Mais uma criança terrivelmente assassinada, por alguém que precisa de salto pra alma, suponho. Desligo a TV. Ligo novamente em mim, em algum canal falho, de zoeira insuportável, precisando de antena. Mas não quero antena. Desligo-me de tudo. Flutuo no nada. É então que você aparece, invade o meu quarto, pergunta se está tudo bem. Meus olhos me entregam: preciso de reparo. (mas se me amas, não me repare. me abrace, me beija, me toma em seus braços com o dobro do peso, pois me segure também à alma. mas me queira assim, faltosa, meio torta, sem reparo algum.) E você lê meu olhar, me abraça como quem não quer nada, aos poucos me toma em seus braços, me aperta, me beija, me abriga, me tem. E deixa sua voz solta pelo ar, dizendo que sou apenas uma alma tentando se costurar, mas que, por tentar, acabou furando o dedo com a agulha. A agulha é o mundo e eu com medo do mundo. O que é verdade. Sinto que estou sempre de malas prontas e nunca pronta para partir.

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