quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Baú

Na gaveta emperrada da cômoda velha, Olívia guardava tesouros valiosos, que dificilmente poderiam ser avaliados por olhares objetivos e exatos; calculados em números jamais poderiam ser. No canto esquerdo da gaveta, uma carta manuscrita, de três páginas gastas, quase amareladas, e que exalavam o cheiro inconfundível do tempo. 
As três páginas, que não permitiam sequer um espaço em branco pela folha - até mesmo as entrelinhas estavam literalmente preenchidas com algum escrito -, guardavam o esboço de uma história de amor não contada. Uma história vivida intensamente a cada segundo, como aquela folha havia sido escrita intensamente a cada linha - e espaço em branco. 
Do amor, não mais presente, restara essa carta. Junto a ela, permanecia com o tempo, o gosto, o cheiro, o toque, e mais um amontoado de sensações que cada palavra e verso lidos eram capazes de despertar no corpo e na alma de Olívia.
Se perguntada por que ainda guardava aquela carta e todos aqueles papéis e objetos velhos, certamente não saberia dizer. Não sabia o porquê do gosto em guardar tantas inutilidades aos olhos alheios, mas ainda assim insistia em amontoar inutilidades ou insistia, como ela mesma gostava de intitular, em colecionar memórias. 
Vez ou outra, tomada pelo tédio da agitação cotidiana, recolhia-se até o quarto, abria a gaveta e escolhia uma carta para ser lida. As emoções iam desde a saudade inconfundível e atormentadora até o riso descontido, despertado por cartas que falavam de sentimentos efêmeros que se escorreram pelo tempo e já não faziam mais sentido.
A falsa presença que as cartas e os objetos traziam, mantinham Olívia vivendo em um tempo que se tornou seu refúgio diário, mas que não era real; se permitindo ressentir emoções que a faziam se sentir viva, mas que já não faziam mais verdadeiramente sentido. Na tentativa de recuperar laços rompidos e se encontrar, ao juntar fragmentos passados de si própria, Olívia se privava do cheiro de novos laços e emoções, do gosto único que acompanha cada novo dia, da novidade, da eterna novidade da vida. 
 "Olívia, o café está pronto!"   gritou Benjamim, seu esposo, com voz vívida ainda que calma.
Olívia fechou a gaveta e, seguindo aquela voz que de tanto ouvir lembranças não mais reconhecia, pôs-se a andejar até à cozinha; pôs-se a caminhar, como quem caminha sem sofrer os próprios passos, como quem ainda não fechara a gaveta.

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