Há
uma verdade presa no olhar daquela mulher, que não vejo, mas me assusta.
Há
um mistério naquelas pegadas abandonadas na areia que, enquanto o vento não as
assopra e a onda não as come, fico a observá-las como se fossem minhas, se
parecem tanto com as minhas...
Há
um protesto gritando dentro de cada coração mundano que, na urgência de sair,
erra a boca e acaba por vazar pelos olhos.
Há
uma vida inteira marcada nos corrimãos das cidades. Uma vida que não tem
digital certa nem olhar fixo, mas respira.
Há
nos seres inanimados uma paixão cega, surda e muda, que recupera os sentidos ao
habitar em nós.
Há
nas flores da cidade um pouco do perfume de cada um que passa, que se assenta,
que olha, que fica admirado, que tira uma foto, que abre um sorriso, que tem
uma lembrança ou que chora. É por isso que gostamos tanto do perfume das flores:
reconhecemo-nos.
Há
nos espelhos mais frágeis, restos de batons de paixões baratas; marcas de dedos
agonizados; cola de adesivos velhos que já não fazem mais sentido; emoções que
surgem ali no cara-a-cara e depois se derretem; sorrisos dos mais belos e mais
íntimos, vindos de bocas que não são observadas; olhos mastigados de dor;
rugas carregadas de sonhos, e realidade.
Há
dias que não são registrados em calendários e horas que não podem ser contadas
na exatidão dos números.
Há
dor abafada nos risos mais alarmantes e sorrisos escondidos nos olhares mais
desapercebidos.
Há
uma contradição naquele que declama fervorosamente o que pensa e uma calma
risonha naquele que prefere confiantemente a espera.
Há
uma bagagem extra no porta-malas daquele carro que vaga pela estrada até
desaparecer. Uma bagagem que não se pode carregar, abrir, arrumar. Mas que pesa
desumanamente no coração de quem a carrega.
Há
um ruído órfão no pássaro que canta e no menino que chora. Entre o canto e o
choro, se atira da garganta uma nota aguda, doída, aguída. Sei que dói porque
ela me acerta o peito, como flecha; sei que existe, porque, de tanto ouvir
entrelinhas, aprendi a ler entresons, e leio.


