Felizmente
eu cresci com as pipas, os algodões doce, as cantigas de roda e os pés
descalços cambaleando na rua até o despontar da lua. Felizmente eu nasci com
um céu de flores me contornando inteira e um jardim de sonhos me escorrendo dos
olhos. Felizmente Deus me fez tudo com uma doçura incomunicável que faz com
que, ainda que a vida me desponte áspera, eu a toque lisa; ainda que o dia
me chame aos berros, eu, na minha paz intocável, o viva na serenidade de quem
se sente parte de tudo, de quem dança com as árvores sob a mesma música, de
quem tem pulsando dentro das veias o mesmo amor que pulsa nos seres mais
desapercebidos.
Sempre
gostei de pensar que sou um coração batendo no mundo. Pensar assim, me aproxima
da minha pequenez humana e me deixa mais perto do que, pela minha lei,
deveria fazer brilhar os olhos. Como Manoel de Barros, eu sou uma apanhadora de
desperdícios, uma eterna apanhadora de desperdícios; uma pra sempre apaixonada
pelos restos que os outros vão deixando pelos caminhos e que, a mim, chegam como
uma eterna novidade; e que, a mim, chegam doce, perfumados, carregados de
poesia. Quase nunca é necessária a prova para que eu os perceba assim: a vida
me encanta simplesmente por ser vida, por ser viva; e os desperdícios que
encontro pelo caminho me ganham pelo olhar.
