segunda-feira, 30 de junho de 2014

Nunca deixar de ouvir... com outros olhos!

        Felizmente eu cresci com as pipas, os algodões doce, as cantigas de roda e os pés descalços cambaleando na rua até o despontar da lua. Felizmente eu nasci com um céu de flores me contornando inteira e um jardim de sonhos me escorrendo dos olhos. Felizmente Deus me fez tudo com uma doçura incomunicável que faz com que, ainda que a vida me desponte áspera, eu a toque lisa; ainda que o dia me chame aos berros, eu, na minha paz intocável, o viva na serenidade de quem se sente parte de tudo, de quem dança com as árvores sob a mesma música, de quem tem pulsando dentro das veias o mesmo amor que pulsa nos seres mais desapercebidos. 
Sempre gostei de pensar que sou um coração batendo no mundo. Pensar assim, me aproxima da minha pequenez humana e me deixa mais perto do que, pela minha lei, deveria fazer brilhar os olhos. Como Manoel de Barros, eu sou uma apanhadora de desperdícios, uma eterna apanhadora de desperdícios; uma pra sempre apaixonada pelos restos que os outros vão deixando pelos caminhos e que, a mim, chegam como uma eterna novidade; e que, a mim, chegam doce, perfumados, carregados de poesia. Quase nunca é necessária a prova para que eu os perceba assim: a vida me encanta simplesmente por ser vida, por ser viva; e os desperdícios que encontro pelo caminho me ganham pelo olhar. 


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