sábado, 31 de maio de 2014

O Grito do Mundo


Era tarde, Clara permanecia entregue ao silêncio do seu quarto, com pensamentos que se mexiam em vão e com o olhar corrido em detalhes que nem eram vistos, enquanto o dia não despertava e o ônibus das seis não tomava partida. A noite lá fora tentava resistir no silêncio, enquanto vozes desconhecidas gritavam suas insatisfações, injustiças e lamúrias, reais ou inventadas. Engano pensar que o barulho cessaria ao despertar do dia: intensificaria. Mas o barulho pela manhã refletiria risos criados, conversas repetidas, afazeres pré-determinados que encobririam os gritos ecoados poucas horas antes. Onde estariam as vozes que os ecoaram? Em uma ressaca interminável? Encobertas por pontes e cobertores imundos?
Clara vagamente se lembrava de outra viagem, outro sábado, outro ônibus das seis quase em seu destino final... A voz de uma mulher que gritava debaixo da janela, sob o sol estridente: "Olha a água! Água a R$1,00 real." A boca dela era do tamanho da fome do mundo. O grito desesperado e ensurdecedor, como quem já não consegue enxergar esperança... E o susto ao ver a cena pela janela, agora desperto em um pensamento que se mexe não mais em vão, parece fazer mais sentido. As mesmas vozes que gritaram há pouco debaixo da janela do quarto; todas essas bocas que gritam, têm fome! - pensou Clara. Todas essas bocas que riem e conversam e disfarçam e abafam as lamúrias noturnas com seus barulhos cotidianos, também têm fome. Arriscaria até mesmo a dizer que todas essas bocas possuem um mesmo tipo de fome, de sede, de necessidade: amor.

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