segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

detalhes


Há uma verdade presa no olhar daquela mulher, que não vejo, mas me assusta.
Há um mistério naquelas pegadas abandonadas na areia que, enquanto o vento não as assopra e a onda não as come, fico a observá-las como se fossem minhas, se parecem tanto com as minhas...
Há um protesto gritando dentro de cada coração mundano que, na urgência de sair, erra a boca e acaba por vazar pelos olhos.
Há uma vida inteira marcada nos corrimãos das cidades. Uma vida que não tem digital certa nem olhar fixo, mas respira.
Há nos seres inanimados uma paixão cega, surda e muda, que recupera os sentidos ao habitar em nós.
Há nas flores da cidade um pouco do perfume de cada um que passa, que se assenta, que olha, que fica admirado, que tira uma foto, que abre um sorriso, que tem uma lembrança ou que chora. É por isso que gostamos tanto do perfume das flores: reconhecemo-nos.
Há nos espelhos mais frágeis, restos de batons de paixões baratas; marcas de dedos agonizados; cola de adesivos velhos que já não fazem mais sentido; emoções que surgem ali no cara-a-cara e depois se derretem; sorrisos dos mais belos e mais íntimos, vindos de bocas que não são observadas; olhos mastigados de dor; rugas carregadas de sonhos, e realidade.
Há dias que não são registrados em calendários e horas que não podem ser contadas na exatidão dos números. 
Há dor abafada nos risos mais alarmantes e sorrisos escondidos nos olhares mais desapercebidos. 
Há uma contradição naquele que declama fervorosamente o que pensa e uma calma risonha naquele que prefere confiantemente a espera.
Há uma bagagem extra no porta-malas daquele carro que vaga pela estrada até desaparecer. Uma bagagem que não se pode carregar, abrir, arrumar. Mas que pesa desumanamente no coração de quem a carrega.
Há um ruído órfão no pássaro que canta e no menino que chora. Entre o canto e o choro, se atira da garganta uma nota aguda, doída, aguída. Sei que dói porque ela me acerta o peito, como flecha; sei que existe, porque, de tanto ouvir entrelinhas, aprendi a ler entresons, e leio. 

Um comentário:

  1. encontrei por acaso...
    sigo por determinação, pra voltar mais vezes...

    Salve ' a calma risonha da espera'
    Linda a voz do entresom.

    abraço

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