sábado, 21 de maio de 2011


Um brinde aos sonhadores, apaixonados, com fome de mundo. Aos que não se escondem nem se habituam ao uso de máscaras, mas que mostram o rosto e botam a cara a tapa, crua mesmo, pura, sem maquiagem ou requinte. Um brinde aos que sonham; aos que arriscam; aos que já se apaixonaram, tiveram fome de mundo, botaram a cara a tapa e cabaram com o rosto imenso, inchado, dolorido e vermelho de tanto apanhar. Aos que, em uma aconchegante tarde primaveril, foram docemente convidados para entrarem, se assentarem e tomarem o chá amargo do desamor. São esses, as vítimas dessa bebida impiedosa, os eternos suportadores da sua enchaqueca, os paralíticos por dentro e que ainda assim caminham. São esses, os interiormente aflitos, que por causa do desamor passado caminham com calma; pensamento longe; pé firme no freio; olhar atento para o desvio, caso apareça algum novo buraco; com palavras guardadas em alguma gaveta por dentro, esperando o possível momento certo de pronunciá-las. Mas são os mesmos que, do nada, explodem: apressam o passo, pisam no acelerador e deixam as palavras livres, saltando como um grito da alma. Um brinde a esses que bebem dia e noite da fonte da vida. Bebida essa imprevisível, sem gosto nem cheiro específico. A esses que são, acima de tudo, gente. Gente que não se economiza. Gente que se permite ser e viver apesar de. Gente que se abre e se deixa tocar. Gente que toca. Gente que perfuma o mundo. Gente que desabroxa. Gente que sonha. Gente que ama.
Do jeito que for.

domingo, 15 de maio de 2011

      E muitas vezes não suportava sequer o próprio peso de ser. E muitas vezes tinha dúvidas até do próprio cheiro, do próprio nome, do próprio chão. Viver tem dessas coisas. São tantos pedaços de nós mesmos que ao longo da vida são vendidos, trocados, doados, esquecidos no porão de alguma alma e nunca mais vistos, abandonados na porta de uma casa qualquer, por não termos mais força para carregar aquilo conosco ou coragem para manter aquilo sob o nosso olhar.
     E não há resposta imediata, ainda que a mudança esteja sempre presente. E ao contrário do que é produzido a cada minuto neste mundo, não existem regras nem manuais quando se trata de pessoas. Tão homogêneas e ao mesmo tempo tão únicas. Tão perceptíveis e ao mesmo tempo tão cheias de mistério. Se a vida costuma ser astuciosa, meu amigo, que posso eu dizer da astúcia de uma alma. A cada dia tão mais cheia de buracos e rabiscos e remendas e retalhos...
     Ninguém avisou que alguns buracos ficam irrepreenchíveis para sempre, nem que alguns rabiscos não saem por nada. Ninguém avisou também que o amor não é bem aquele trevo de quatro folhas que você vai encontrar num desses jardins esquecidos - ou numa dessas esquinas qualquer -, apenas uma vez na vida. O amor está em tudo: num botão de flor prestes a desabrochar, numa veloz estrela cadente contornando o céu, num abraço dado por impulso, num sorriso que você recebeu de volta de uma criança, naquela gargalhada gostosa de quem a gente ama que chega a fazer cócegas na nossa alma... Chega a ser ingênuo pensar que esse trevo de quatro folhas estará à sua espera apenas uma única vez na vida.
     Amor, amor de verdade, requer carinho, atenção, compromisso, compreensão e cuidado, muito cuidado. Mas é ele a agulha que auxilia, au-xi-li-a na costura dos retalhos na alma. Auxilia, porque só amor não basta. Tudo nessa vida é contradição, é antítese, e o amor não escapa. Tão borbulhante de felicidade, tão cheio de uma vontade assustadora de viver, tão forte para nos reerguer o corpo e ao mesmo tempo tão sensível, tão frágil, tão humanamente emoldurado.
     Mas, por sorte, toda alma, sem exceção, é cheia de vontade de fazer arte, de emoldurar esse trevo de quatro folhas, de desabrochar para a vida, de desabrochar para o amor; apesar dos buracos e das remendas, apesar dos pesares, apesar dos, apesar das, apesar de. Por sorte.

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