terça-feira, 26 de outubro de 2010

convite para despertar



Eu te guardei no bolso esquerdo da calça, junto com todos os meus pedacinhos. Carreguei a calça comigo por dois anos que mais me pareceram séculos. Um dia adormeci e, por pura distração, deixei a calça no baú
ao lado. Quando o sol me ardeu os olhos, despertei. Olhei para o lado, não havia calça alguma. Corri para
a cozinha, onde minha mãe preparava o café e, desesperada, como quem tivesse perdido tudo, gritei:
- Mãe, onde está aquela calça que eu gosto? Eu a deixei ao lado da cama antes de dormir, não está mais lá.
Minha mãe se aproximou, me beijou a testa, sorriu e então disse:
- Minha filha, calma, era só uma calça. Você anda há tanto tempo com ela por perto e imaginei que estivesse suja. A coloquei para lavar.
- Mas você olhou os bolsos antes de lavá-la?
- Sim.
- Então onde está tudo o que estava nos bolsos?
- Está na primeira gaveta da sua cômoda, querida. 
Corri de volta para o quarto, abri a gaveta e, por cima dos livros, nada além de duas moedas e um papel já desgastado. Nada que me fizesse falta, caso lavado. Segurei aquilo com as mãos, me sentei na cama e respirei fundo. Por dentro, meu coração mais era um campo de batalha de sentimentos e minha cabeça pensava tanto e não pensava nada. Estava louca, mas não doía. Estava desesperada, mas com os pedaços perfeitamente colados. Incrível como você foi se desmanchando aos poucos junto com a sujeira que estava impregnada na calça. E mais incrível ainda, como você foi se desmanchando dentro de mim. Relaxei as mãos, deixei as moedas e o papel cairem e, enquanto faziam um pequeno ruído ao tocarem o chão, me joguei na cama. O sol me ardeu os olhos outra vez. E brilhou com uma luz que nunca brilhara antes. Não era incômodo, mas um convite em forma de luz. Um convite para algo que eu estava me desligando aos poucos. De repente me veio uma vontade de sorrir, de sentir, de amar, de viver... Me dei conta de que às vezes mantemos coisas que não nos são necessárias e que nos faz sentir quebrados em um milhão de pedacinhos presos dentro de um bolso. Acho que todos deveriam lavar as calças às vezes sem se preocupar muito com o que há dentro dos bolsos. Vai ver é só mais uma moeda ou um papel que um dia foi útil e hoje, apenas insignificante. Vai ver era mesmo só uma calça que estava suja e precisava ser lavada... De fato, fazia algum tempo que eu acordava me sentindo espatifada, quebrada em um milhão de pedaços, perto de não ser capaz de sentir mais nada. Mas naquele dia eu acordei completa e incrivelmente feliz.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

presente




Mas o que é isto? Um papel embrulhando o nada?  Mas ele sabia que eu tinha dessas coisas...
Procurou alguma pista. Encontrou uma carta no canto da caixa onde seguiu o embrulho. Segurou-a firme, olhou para o nada e então, após uma leve desconexão de tudo, resolveu lê-la: Este embrulho vai percorrendo cada centímetro da distância corporal que existe entre nós. Irá passar de mão em mão, mas de uma certa forma chegará das minhas às suas. E neste embrulho vai um presente estranho, simples e oculto, e espero que consiga fazer tua alma suspirar enquanto teus olhos se fechem sorrindo e teus lábios moldurem o mais perfeito sorriso. Seis anos se passaram e tão pouco lhe presentiei. Não foi por preguiça ou falta de dinheiro, nem mesmo por falta de tempo. Todos os presentes foram comprados, mas nunca enviados, porque nenhum nunca serviu. Porque nenhum era ideal o bastante para deslizar das minhas mãos e passar a ser seu. E eu sempre receei em guardar os presentes que lhe comprava e depois dizer sentir saudades e te amar muito. O que sempre foi verdade. E eu sorria toda vez que lembrava do seu rosto. Sorria toda vez que lembrava do tom da sua voz. Sorria toda vez que lembrava dos seus braços envolvidos em mim, me servindo de abrigo e proteção. Sorria toda vez que lembrava de você. E chorava em seguida, porque havia sempre uma necessidade nunca suprida. Neste embrulho estão todas as lágrimas, todos os sorrisos, todos os segundos desses longos seis anos. Pegue. Segure firme. Sinta. Porque era meu e agora lhe pertence. Porque eu precisava muito dividir todos esses anos regados à saudade contigo. Porque você sempre esteve cada segundo, cada momento junto de mim, então essas lágrimas também são suas e esses sorrisos também são seus. E junto deste embrulho vai parte da minha vida, parte de mim... Para que possas devorar e abastecer-se. Abastecer-se de amor. Porque sou toda tua e sou toda amor. Agora cheira o embrulho, por favor. Sentiu? Bom? Sabe, é cheiro de eternidade... Porque junto desta carta e deste embrulho vai ainda o para sempre que nunca deixou de ser possibilidade para nós. O seu presente então é esse: toda a minha vida e, não sendo bastante, toda a minha eternidade também.

terça-feira, 12 de outubro de 2010





Mas saiba que também já feri. E feri por não suportar a verdade que me estourava no peito em direção à boca. Feri por querer-te e querer-me verdadeiramente feliz. E por acreditar que não existe felicidade no quimérico, na mentira, na continuação tortuosa de uma ilusão.

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