segunda-feira, 11 de junho de 2012

o que escrevo

Tudo o que escrevo sou eu, mas não se engane. Escrevo meu eu real. Meu eu sonhado. Meu eu sofrido. Meu eu afortunado em graça. Meu eu escondido em pedras. Ou em flores. Escrevo meu eu passado. Meu eu que vive. Meu eu futuro, que arrisco em sonho e que, talvez, nunca venha a me ser. Por carregar tantos eus é que escorro pelas beiradas. Mas o que escorre é o que passa. O que tenho de mais eu fica encravado no meio. Não sai.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Inverno

O inverno chegou,
Me agasalhou o corpo,
Me enrugou os dedos,
Deixou alma e dentes nus.

Arde na face, agora, a dor
E gelam
As mãos que outrora se puseram
A tremer por amor.

Por amor, aceito
A perda do outono na esquina daquela rua
Onde, inda que depois de tanto feito,
Nunca mais hei de ser tua.

No inverno, sou meu eu mais triste
Que existe!
Sou meu eu mais corpo geleira,
Sou meu eu mais alma vulcão.
Sou meu eu mais passarinho,
Carente de carinho,
Que, por caçar ninho,
Caiu em desalinho
Dentro do próprio coração.

terça-feira, 24 de abril de 2012

labirinto

Mas a vida parecia tão simples para toda aquela gente. Era tudo tão mais complicado pra mim. Disseram-me que o segredo era não se importar, mas eu me importava até com a folha a cair da árvore. Tudo me pesava, tudo me doía. Tive pressa para nascer e, nas entrelinhas do meu registro, tem sensibilidade como sobrenome. Procuro me amar, sempre que posso. Me perdoar, sempre que posso. Mas é meu o peso do mundo ardendo nos ombros e, minha, a pluma flutuando na alma. Conheci os dois lados da moeda, as duas formas de existência. Os que se importam e os que não se importam. E não me arrependo de onde escolhi deixar minhas pegadas. Há um tempo de se ser e um tempo de perceber o que se é. Viver é descobrir-se. E em um desses tempos, me descobri labirinto. Afortunadamente, sou labirinto - desses que a gente acaba se achando vez ou outra. E sinto que não saberia ser mais nada. Em qualquer estrada certa que eu arriscasse pôr os pés, estaria indubitavelmente perdida.

quinta-feira, 29 de março de 2012

eu passarinho



Pode até ser que um dia eu aceite essa meia prisão, essa meia vida. Mas o que sou hoje não cabe em gaiola. Quer voar. Quer descobrir-se. E se cada um sabe de si, sei de mim que hoje não posso mais. Que hoje vou ficar aqui fora, pendurada nesse galho e quase sendo derrubada pelo vento que bate e pela chuva que cai, mas vou ficar. Dentro dessa gaiola nunca vi passarinho abrir voo. E o passarinho que existe em mim quer é voar. Perdão, se o meu canto desafinado cantou tanto pra ti que o fez se sentir dono. Agradeço pelo afago. Pelas acolhidas com direito a beijinho na ponta do bico. Mas é que hoje não suporto ficar e manter os pés tão abaixo do chão. Não suporto essa espera absurda pra vez ou outra ganhar migalha do bico teu. Clarice já avisou que amar não é só ter carinho. Que não é fácil. Eu aviso que não é tão complicado. O complicado é contentar-se. Contentar-se com tão pouco quando se fala de tão muito. E eu não me contento. É por isso que dessa vez quando o sol aparecer, cedinho, me chamando, eu vou.

segunda-feira, 5 de março de 2012

gangorra existencial



     E foi assim que eu me encontrei, sentada, fazendo uma gangorra com os pés, que nem mesmo chegavam ao chão. O peso da minha existência bambuiava para frente e para trás com uma leveza que só se mostra nas tardes abandonadas de domingo. E, no cheiro de café que dançava no ar, o perfume do bolo de cenoura quentinho com um risco sutil de manteiga, diretamente da época em que a cadeira era alta demais para eu sequer pensar em subir sozinha e arriscar um vai e vém com os pés. Diretamente do tempo em que eu punha meus dedos pequenos na beira da janela e levantava os pés, ansiosa para enxergar o mundo com a beiradinha dos olhos.
     E cá estou, não só crescida o bastante para ver o que havia do outro lado da janela, sem esforço, mas estrelando a gangorra turbulenta que existe do lado de fora, e que chamamos de mundo. E eu abro os olhos todos os dias, pela manhã, vendo os grãos de poeira junto aos tímidos raios de sol, pairando pelas frestas da janela, em direção ao meu rosto. E a criança que existe em mim pede com a força de uma oração que aquilo seja poeira cósmica, das estrelas fluorescentes pregadas no teto do quarto e que, naquele dia, decidiram se tornar reais. E pede ainda que, ao chegar da janela, a vontade de ir explorar o outro lado seja tão urgente como foi um dia, e que não se transforme em medo ou vontade de voltar para detrás da janela e correr um único risco, que é o de cair da ponta dos pés, da altura de alguns centímetros poucos. A criança que existe em mim pede, ainda, quase gritando, que os lábios alheios achem graça das besteiras que saltarem da minha boca de gente grande, que emoldurem sorrisos sinceros toda vez que eu trocar o "r" pelo "l" ou pronunciar uma palavra pela metade, que me peguem no colo quando o caminhar com as minhas próprias pernas me cansar um pouco, que gargalhem com o meu jeito de correr desengonçado, típico de quem ainda está aprendendo a andar, e que batem palma e vibrem quando eu aprender a cantar uma música nova ou fizer um desenho novo e ir correndo mostrar.
     A criança que habita em mim sabe que a vida é como uma borboleta, que se transforma e acaba, às vezes, cedo demais, mas que possui doçura, quando se é livre, de alma. E às vezes sinto como se tivesse me casado com a vida. Como se eu fosse herdeira do alecrim dourado que minha mãe cantava ao pé do meu ouvido, dos desenhos de sábado de manhã, das tanajuras caindo do céu e de perfumes que me remetem a lembranças nem sempre nítidas. Como se fôssemos íntimas o bastante para que eu a aceitasse áspera e ela me aceitasse de mau humor. Para que soubéssemos da confiança que é esperar sem resmungos doentios. Esperar a hora certa, esperar o brilho nos olhos, esperar o colo levado para longe... Esperar. E para que tivéssemos a liberdade de nos manter em silêncio quando quiséssemos, a liberdade de gritar, espernear, nos afastar, nos presentear, quando quiséssemos.
     Minha infância de criança sozinha criou em mim diálogos com as formas mais inesperadas de vida. Tudo o que faz o menor ruído, me chama. Tudo o que existe, surpreendentemente, me fascina. Tudo o que tem um coração, me tem também. Cresci. E cresci inteira. Curvas humanas já não me cabem na alma. Podem me destroçar toda que eu renasço. Podem me rasgar inteira que eu me renovo. E se alguém se atrever a dizer que o outro lado da janela não é para a minha altura, eu me atrevo a subir na cadeira e pular, a saltar lá de cima de uma das gangorreadas, a voar, mas eu vou, eu sigo. Ah! eu sigo. Pois só desisto quando a inevitável das mortes chegar. E só morro no fim.

domingo, 4 de março de 2012

pseudo-saciedade



   Que logo eu, amante da vida que sou, estava deixando a vida ir. Estava permitindo a ela que passasse por mim como um vento e, a mim, não permitia sequer o cabelo solto ou o vestido rodado, nem mesmo os dentes estampados na cara, para gelar e tremer com o vento frio.
     Via gente comendo vida e, numa convulsão espiritual, morrendo de alma, por não se permitir tempo para a digestão existencial. E eu com uma anorexia de mundo, entregue à uma digestão que parecia não ter fim. Me achando cheia o suficiente de tudo. Sem saber que nós nunca estamos cheios o bastante para nos permitir uma espera tão longa, para nos permitir o abandono do alimento por tanto tempo. E sem saber que, para certas coisas que ingerimos, nós é que determinamos seu tempo dentro do nosso estômago-coração. Que se começa a nos atrasar pra vida, aí estão os antiácidos. Que barriga cheia nem sempre é sinônimo de saciedade. E que o medo de provar da vida chega por caminhos obscuros e nos leva ao mais triste dos esquecimentos, o esquecimento de nós mesmos.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

desalinho

Primeiro, o olhar do bom dia, acompanhado do estalar do beijo na testa; depois o olhar preocupado e longe, seguido de um riso sem graça, depois do café; o olhar despercebido, depois de um outro acontecido qualquer; o olhar aflito, depois do longo silêncio que, naquele dia, chegava a doer os ossos; enfim o olhar seco e choroso, acompanhado de um abraço forte que nos demos amedrontados, que nos demos enganados. Achávamos que se nos abraçassemos tão forte e tão demorado, recuperaríamos aquilo que havíamos perdido. Realmente achávamos que, por apertar tanto os nossos corpos, chegaríamos num estágio superior, algo como um abraço de almas. Que nada. Por fim, o olhar profundo, com um traço de pena estampado no rosto, e com um choro entalado por dentro, que não refletia sequer um único soluço na sua cara pálida ou na minha queimada de sol. De repente, o desentrelaçar dos nossos dedos abafava o último suspiro do laço que ainda ligava nossos corpos. Depois veio o cheiro de mala velha e mofada deitando sobre a cama; o gemido de passos largos sobre as tábuas velhas da sala; o barulho inconfundível de motor ligado. O último olhar, indecifrável, foi trocado entre a porta arreganhada e a janela entreaberta do carro, seguido de um ruído de automóvel desaparecendo, gradativamente, pela estrada. Depois o soluço. E a lágrima. Não nos foi necessária uma palavra sequer. Estava simplesmente terminado, e sabíamos. Mas é como se a parte humana, destinada a criar laços, não se encaixa-se nesse mundo que faz tão necessário o desapego. Por mais que saibamos - e como - dessa natureza de metamorfoses e perdas que é a vida, fica sempre uma angústia no olhar e um vazio no peito, porque dói quando a estranheza toma conta, porque dói - e dói muito - quando duas almas não conseguem mais se reconhecer, e se perdem.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

perene

O barranco desabou na estrada onde seguíamos. Mais um barranco desabado. Mais um laço soterrado. Mas a vida é assim mesmo: laços são soterrados todos os dias, impedidos de seguir. Mas não se entristeça não, meu bem, pois se for verdadeiro é resgatado um dia. Mesmo com a terra cortando a pele e a areia arranhando os olhos. Alguns laços simplesmente continuam, inda que noutros rostos, noutros risos, noutros olhos, noutros tempos...

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Os dois ainda se perguntavam se um não iria abandonar o outro. Na verdade tudo não passava de frutos do desamor passado. É que o desamor também deixa frutos, daqueles amargos que só os que não se submetem a praticá-lo de volta provam. E fica essa cisma mesmo. Se o gosto vai voltar. Se vai ser tão amargo quanto da última vez... Mas o que as pessoas não sabem é que em todos há uma fonte doce que não seca. Seja nos olhos de mel, no toque de algodão doce, nas palavras com casquinha de chocolate que chegam até o ouvido... E não importa quantos potes de pimenta foram jogados nessa fonte, nem por quanto tempo ela se manteve amarga, ela sempre se adoça novamente. E também não sabem que, depois de terem provado o amargo, o doce fica tão doce que tem gosto de magia, de sonho, de pedaço de nuvem mais macio lá do céu.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

o eterno

E nada do que se pode tocar, nem nada do que se pode ver reflete eternidade. O que escorre para a eternidade é aquilo que temos e não conseguimos entender bem, aquilo que sentimos e não sabemos atribuir nome, aquilo que não podemos ver nem tocar, mas sentir em cada átomo do nosso corpo. É o subjetivo mundo próprio de cada pessoa. São os sentimentos confusos. É a liberdade, a paz, o amor, e quase mais nada.

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