Dentre tantas formas que uso para tentar entender um pouco as pessoas, uma delas é comparar as pessoas ora com livros, ora com leitores. Com livros porque carregam consigo histórias dos mais variados gêneros combinadas com mistérios, sonhos, vontades e emoções e tudo isso coberto por uma capa, o nosso corpo. Alguns livros interessam pelo nome, pela capa e pela propaganda, mas, são abandonados durante a leitura por terem um conteúdo que não corresponde às expectativas. Outros livros são aparentemente simples, mas possuem um conteúdo rico e surpreendentemente interessante. Lembrando sempre que um livro não deve ser julgado pela sua quantidade de páginas: alguns já foram terminados e são vagos, outros ainda estão sendo escritos e são recheados de sabedoria. Considerando também que o número de páginas possa representar uma vida, que não importa o quanto dure desde que seja intensamente vivida - ou lida. Quando não se é livro, se é leitor. Durante a sua vida você lerá alguns livros por interesse próprio, mas, sempre haverá aqueles impostos por terceiros. Agora olhe para mim e olhe para você. Eu posso não querer lê-lo porque seu nome não me agrada ou pelo formato e cor da sua capa e acabar perdendo uma história incrível, enquanto você pode se deixar levar pela minha aparente preciosidade e querer me devorar logo de uma vez, contudo, no fim do primeiro capítulo sentir uma vontade inquietante de me vomitar logo. Você vai se apaixonar por alguns livros e depois nem se lembrar direito do que eles se tratavam, mas, vai ter sempre aqueles especiais por perto - ou por dentro. E em alguns momentos você pode até sentir que esses mais especiais são apenas seus e de mais ninguém, mas perceber com o tempo que, assim como você conhece outros livros, não há nada de errado em deixar que outros leitores leiam seus livros também. Alguns livros podem ser jogados em chamas e se queimarem até não sobrar resto algum, outros podem se afogar e borrarem até não poderem mais ser lidos...
E um fato: não importa quão longo seja o livro, assim, como todos os outros, a história sempre terá um fim. E alguns permanecerão além de qualquer fim, eternizados dentro de seus leitores.
domingo, 22 de agosto de 2010
sábado, 21 de agosto de 2010
Sua partida doeu por dentro e por fora. E eu sentia como se meus músculos estivessem se comprimindo e eu, esmagadamente, ficando menor e mais frágil. Eu podia ver tudo ao meu redor. Podia ouvir as pessoas chorando e conversando em busca de consolo. Eu via e ouvia tudo, mas não conseguia assimilar absolutamente nada. Meus músculos me eram mais importantes que qualquer coisa vista ou escutada. Eu só queria sentir. Talvez sentir era o único verbo que me deixava mais próxima de você. E havia a sua falta. Mais uma falta para a minha vida. Mas essa era diferente, excruciante. Sua falta me pesava como o peso de todos os anos passados e os que ainda passariam. Me encomodava como a falta de um pulmão. Sim, um pulmão. Se me pusesse a reclamar a sua falta como se estivesse perdido o meu coração, talvez eu estaria morta naquele momento e não conseguisse perceber. Mas não. Eu tinha certeza de que estava viva. Aliás, meia morta e meia viva. Porque o fato de eu ter comparado sua falta com a falta de um pulmão, é que eu não tinha partido de fato, mas, sem poder respirar, partiria em breve.
terça-feira, 18 de maio de 2010
Dizem que o começo do amor é mais doce, mais interessante. Normalmente dizem isso depois que começam a aparecer os defeitos, as ideias contrárias, as brigas e o tempo começa a despertar curvas - ou rugas. Certamente as estradas retas e sem quebra-molas seriam mais interessantes e mais fáceis de seguir. Mas que amor é esse em que não há compreensão para os defeitos nem respeito para as ideias contrárias? Que amor é esse que não traz consigo o perdão para reparar as brigas nem a coragem para passar pelas curvas? Coisas que só o tempo desperta e que seu amor, seu tão grande amor não é capaz de suportar. O verdadeiro amor vive entre voos e tombos e os tombos só impulsionam a querer voar mais alto. O falso amor
sempre quebra as asas no primeiro tombo e se sente incapaz de voar novamente. Já se perdeu no tempo a época em que beijos e carinhos eram sinais de amor. Hoje é necessário muito mais. São beijos roubados e carinhos comprados. Sem sentido. Sem amor. Sem nem um pouco de dor. Já cheguei a acreditar que o amor verdadeiro era aquele que te trazia paz, te dava carinho e te arrancava sorrisos e lágrimas de alegria. Aquele que jamais lhe faria chorar de dor. Aquele que jamais lhe faria soluçar nem lhe roubaria horas de sono ou de tranquilidade. Foi a época em que eu acreditava no aparente. Acreditava nos sorrisos e beijos sempre. A época em que eu estava completamente enganada. Hoje eu sei que o verdadeiro amor pode sim lhe
arrancar lágrimas de dor. Mas também sorrisos de felicidade - mesmo que momentanea. Vezes, você vai encostar a cabeça na parede, soltar um leve suspiro e ver que é ele quem te faz viver; vezes, vai lavar os olhos inchados e se encarar no espelho, pensando no tanto que você sofre por ele e se não seria mais fácil fugir logo de uma vez. E você se sente perdido em meio a uma contradição que foge do suportável. Mas vou lhe contar um segredo - nem tão secreto, mas que somos acostumados a varrer para debaixo do tapete - :"O caminho mais fácil nem sempre é melhor que o da dor." E isso sei que é verdade. Fácil é dar um abraço, um beijo, andar ao lado. Dificil é dar um colo, compreender e verdadeiramente amar. Que não me
confundam: Amor não é sofrimento. Mas mais sofrimento do que superficialidade. É contradição. É profundeza. E não há profundeza sem dor. Não há profundeza sem sorrisos salgadinhos. Tem muita coisa por aí títulada como amor que pode ser qualquer coisa, menos amor. E a humanidade está cada vez mais cega para perceber a diferença.
sempre quebra as asas no primeiro tombo e se sente incapaz de voar novamente. Já se perdeu no tempo a época em que beijos e carinhos eram sinais de amor. Hoje é necessário muito mais. São beijos roubados e carinhos comprados. Sem sentido. Sem amor. Sem nem um pouco de dor. Já cheguei a acreditar que o amor verdadeiro era aquele que te trazia paz, te dava carinho e te arrancava sorrisos e lágrimas de alegria. Aquele que jamais lhe faria chorar de dor. Aquele que jamais lhe faria soluçar nem lhe roubaria horas de sono ou de tranquilidade. Foi a época em que eu acreditava no aparente. Acreditava nos sorrisos e beijos sempre. A época em que eu estava completamente enganada. Hoje eu sei que o verdadeiro amor pode sim lhe
arrancar lágrimas de dor. Mas também sorrisos de felicidade - mesmo que momentanea. Vezes, você vai encostar a cabeça na parede, soltar um leve suspiro e ver que é ele quem te faz viver; vezes, vai lavar os olhos inchados e se encarar no espelho, pensando no tanto que você sofre por ele e se não seria mais fácil fugir logo de uma vez. E você se sente perdido em meio a uma contradição que foge do suportável. Mas vou lhe contar um segredo - nem tão secreto, mas que somos acostumados a varrer para debaixo do tapete - :"O caminho mais fácil nem sempre é melhor que o da dor." E isso sei que é verdade. Fácil é dar um abraço, um beijo, andar ao lado. Dificil é dar um colo, compreender e verdadeiramente amar. Que não me
confundam: Amor não é sofrimento. Mas mais sofrimento do que superficialidade. É contradição. É profundeza. E não há profundeza sem dor. Não há profundeza sem sorrisos salgadinhos. Tem muita coisa por aí títulada como amor que pode ser qualquer coisa, menos amor. E a humanidade está cada vez mais cega para perceber a diferença.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
inconstância
E eu tenho essa necessidade de tornar novo apesar da minha dificuldade em mudar. Mas estou em constante transformação: é que não reparo durante só reflito muito depois. O corpo nasce, cresce e morre durante uma vida. Mas e a alma? Quantas vezes tem de fazer isso? Sou alma e sei bem. Sei que há a necessidade de nascer, crescer e morrer - ou transceder - diversas vezes. Sei porque já morri de alma antes e ainda vivo. E às vezes sinto em mim uma pluralidade de cheiros, desejos e sons. Como se á mim cabesse todas as minhas formas e as formas de todo o mundo; a minha dor e a dor de todo o mundo; e a profundeza da minha e das almas de todo o mundo. Como se em mim houvesse muitas almas - apesar de somente uma - e um só corpo.
Muitas noites e um só dia. Muitas histórias e uma só vida. Sou dona de um corpo quieto e uma alma caleidoscópica. Pois meu corpo tem sede de viver e sabe que em alguma esquina haverá um ponto final.
E minha alma tem sede de eterno por saber que para ela sempre haverá uma reticências. Sou cheia de interrogações, exclamações, vírgulas, ponto-vírgulas, pontos e reticências... Mesmo que às vezes não saiba empregá-los como devido. Sou dona de uma alma em que às vezes falta uma vírgula aqui outra ali; e um corpo em que, às vezes, há vírgulas demais. E vou assim... tropeçando em meio às palavras, ligando o meu eu com o meu outro eu e os meus eus com o mundo.
Muitas noites e um só dia. Muitas histórias e uma só vida. Sou dona de um corpo quieto e uma alma caleidoscópica. Pois meu corpo tem sede de viver e sabe que em alguma esquina haverá um ponto final.
E minha alma tem sede de eterno por saber que para ela sempre haverá uma reticências. Sou cheia de interrogações, exclamações, vírgulas, ponto-vírgulas, pontos e reticências... Mesmo que às vezes não saiba empregá-los como devido. Sou dona de uma alma em que às vezes falta uma vírgula aqui outra ali; e um corpo em que, às vezes, há vírgulas demais. E vou assim... tropeçando em meio às palavras, ligando o meu eu com o meu outro eu e os meus eus com o mundo.
Já fantasiei a vida demais. Tenho de mudar. Não digo que pararei de imaginar, sonhar e fantasiar... isso faz parte do pouco e muito que sou, não tem como mudar. Mas parei de querer a vida sempre do jeito que para mim parecia perfeito e passei a aceitar como ela é. Antes eu acreditava que os relacionamentos, mesmo parecendo que iriam durar muito, não davam certo porque a pessoa certa viera na hora errada. Eu mascarava a realidade. A pessoa viera na hora que tinha de vir mesmo, e talvez até fosse a pessoa certa, para aquele momento e nem um segundo a mais. Tudo perdura o tempo que deve perdurar e nem uma fração de tempo a mais. Mas a teimosia nos insinua a não aceitar e a forçar a durabilidade de nossos relacionamentos, como se a nós coubesse o direito de mexer no tempo e de fazer com que permaneça o que nos faz tão bem. O problema, é que mesmo que seja algo que um dia nos fez um bem incompreensível e que hoje nem faça tanto mais, irracionalmente nos prendemos à isso, porque estamos acostumados, acomodados. Porque mascaramos a realidade. Nos iludimos dizendo a nós mesmos que necessitamos daquilo. E na verdade não necessitamos. Sim, sei que são muito mais do que pessoas que perdemos. Perdemos sonhos imaginados, momentos planejados, perdemos o gosto... o cheiro... Mas levamos os momentos compartilhados, os sonhos vividos, o gosto provado e o cheiro sentido. É a perseguidora data de validade que tanto temos que respeitar. Se tentar-mos burlá-la, pode ser que a data de validade até se estique um pouco, mas os sonhos deixarão de fazer sentido, os momentos se perderão de forma drástica e contínua, o gosto não será mais tão doce e o cheiro embrulhará pouco a pouco o estômago até que a realidade arranque toda a máscara. E aí, você percebe que está tentando lutar com um poder que não está ao seu alcance, e tenta mascarar a realidade outra vez... e assim vai se iludindo... mas você não pode fazer nada em relação ao tempo que perdeu.
domingo, 9 de maio de 2010
Mas é que todos querem os amores sempre calmos e serenos, e os amigos sempre alegres e presentes. Querem buscar algo em que acreditar que seja concreto. Algo que vá sempre de acordo com suas verdades e suas vontades. Algo que os façam entender a vida, a existência, tudo. Buscam algo que faça impressionante sentido e passam a acreditar no que descobrem. Sem saber que é o mistério sobre o mundo e sobre nós mesmos, que carregamos desde quando nascemos, que faz tudo tão perfeito. Não buscam a verdade, mas a
sua verdade. O que é certo é o que todos acreditam, é o que convém ser. Sendo assim, atrevo-me a querer sempre o errado. Não sei o porquê mas não é de meu costume admirar o concreto, o aparentemente perfeito, o que sempre faz sentido, os amigos sempre felizes e presentes, nem mesmo os amores sempre calmos e serenos. É que já provei o intenso e devastador, e curioso: também me era vital.
Desconfio do que é sempre perfeito e aceito facilmente. E se você não precisasse de mim, ainda assim seria capaz de me amar? Quero cegamente acreditar que sim. E quanto à minha verdade: é a nossa imperfeição que por momentos sorteados nos faz sentir o responsável gosto da perfeição. O doce gosto do que é eterno mesmo que mortal. Gosto que por vezes sinto nos lugares e coisas menos prováveis. É que mesmo sem saber o porquê, o que não pode ser entendido sempre me agradou muito.E hoje não queria nada além da certeza de que você estaria ali, sempre me apoiando. Mas parece que o meu conceito de perfeita imperfeição anda me perseguindo mais do que deveria. Minha sentença é a aceitação. Mas sou teimosa. E eu, dona de um corpo quieto e uma alma caleidoscópica, me pego muitas vezes a sentir uma intensidade incabível em mim que nem sempre sei onde pôr. E apesar de um interior de extrema imensidade, não há espaço.
É então que minha intensidade começa a transbordar. Por vezes, transborda pelas minhas palavras. Por outras, pelos meus olhos. E isso sempre me pareceu perfeitamente imperfeito.
sábado, 8 de maio de 2010
Do que fomos só me restara o gosto amargo debaixo da língua como um comprimido que não se consegue engolir. Pensei que após a tempestade não restariam mais lembranças, mas ainda restara esse seu gosto que tantas vezes provara e insistira em torná-lo doce. Talvez mais um pouco de água misturada com tempo ajudava... Mas nem mesmo isso foi necessário: seu gosto foi entrando em mim pouco a pouco com a própria saliva que naturalmente eu insistia em engolir. Fez uma pausa rápida pela minha garganta e apertava, e puxava, e destroía. Coloquei minhas mãos sobre a garganta e engoli com força...
Seu gosto percorreu meu corpo, queimando cada lugar por onde passava, despertando em mim uma agonia quase que incontrolável. Me dobrei um pouco e com meus braços apertei um pouco sobre o meu estômago. A cada gemido, uma lágrima. Quanto mais eu apertava, mais doía. E encomodava. Ah, como encomodava... Talvez porque seu gosto tinha se localizado não no estômago, mas no coração. Tanta dor que já não era mais capaz de suportar. Com os olhos fixos ao chão, me joguei sobre a cama com a gota de força que ainda me restava.Com uma mão continuei apertando sobre meu estômago e com a outra segurava forte a fronha do travesseiro, a ponto de começar a rasgá-la -- é que tinha essa mania de fazer doer por fora para amenizar o que doía por dentro --, alimentando a ilusão de que minha dor passasse. A dor não passava nunca. Talvez ela não estivesse no estômago mesmo, mas no coração. Onde qualquer toque é vão. Em profundo delírio e um pouco fora de mim -- seu gosto viera como uma droga das mais destruídoras --, consegui me lembrar de que era março, tardezinha, o sol ainda se punha no horizonte... quando dei meu coração à ti. Sim, dei. E desde aquele momento não me deixaste em paz. Nem que seja com um simples e devastador gosto amargo que me queime internamente e inteira. Pude ver que viestes buscar o que um dia lhe prometi... Que sem palavras essa minha atitude! Como pude jurar minha vida à ti? Como pude entregar-te o que tanto necessito para continuar vivendo?
Ora, veja só eu... me pedindo explicações como se coubesse a mim tais decisões. Como se me fosse possível não entregar-me a ti. Já dissera antes que não podia mudar o que à mim era destinado. Acontece que também não podia suportar mais esse seu gosto. Foi então que apertei os olhos tentando afastar minha visão embaçada e para, assim, poder me avistar melhor no espelho da cabeceira da cama. E de repente, mais um impulso gritante pela urgência que em mim se criava: dei três palmadas em cima do peito enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas. Pronto. Me rendi. E enxugando meus olhos cansados com a ponta dos dedos trêmulos, os fechei pela última vez.
Seu gosto percorreu meu corpo, queimando cada lugar por onde passava, despertando em mim uma agonia quase que incontrolável. Me dobrei um pouco e com meus braços apertei um pouco sobre o meu estômago. A cada gemido, uma lágrima. Quanto mais eu apertava, mais doía. E encomodava. Ah, como encomodava... Talvez porque seu gosto tinha se localizado não no estômago, mas no coração. Tanta dor que já não era mais capaz de suportar. Com os olhos fixos ao chão, me joguei sobre a cama com a gota de força que ainda me restava.Com uma mão continuei apertando sobre meu estômago e com a outra segurava forte a fronha do travesseiro, a ponto de começar a rasgá-la -- é que tinha essa mania de fazer doer por fora para amenizar o que doía por dentro --, alimentando a ilusão de que minha dor passasse. A dor não passava nunca. Talvez ela não estivesse no estômago mesmo, mas no coração. Onde qualquer toque é vão. Em profundo delírio e um pouco fora de mim -- seu gosto viera como uma droga das mais destruídoras --, consegui me lembrar de que era março, tardezinha, o sol ainda se punha no horizonte... quando dei meu coração à ti. Sim, dei. E desde aquele momento não me deixaste em paz. Nem que seja com um simples e devastador gosto amargo que me queime internamente e inteira. Pude ver que viestes buscar o que um dia lhe prometi... Que sem palavras essa minha atitude! Como pude jurar minha vida à ti? Como pude entregar-te o que tanto necessito para continuar vivendo?
Ora, veja só eu... me pedindo explicações como se coubesse a mim tais decisões. Como se me fosse possível não entregar-me a ti. Já dissera antes que não podia mudar o que à mim era destinado. Acontece que também não podia suportar mais esse seu gosto. Foi então que apertei os olhos tentando afastar minha visão embaçada e para, assim, poder me avistar melhor no espelho da cabeceira da cama. E de repente, mais um impulso gritante pela urgência que em mim se criava: dei três palmadas em cima do peito enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas. Pronto. Me rendi. E enxugando meus olhos cansados com a ponta dos dedos trêmulos, os fechei pela última vez.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
E eu sentia a minha vida partindo aos poucos como uma garrafa de refrigerante meio aberta perdendo seu gás. Mas eu ainda corria para ver o avião dar a volta ao céu. Ainda sorria para as estrelas todas as noites - até mesmo nas noites em que não as via. Ainda saia correndo para o portão com os olhos brilhando quando passava o rapaz do algodão doce. Ainda carregava um brilho dentro de mim que refletia nos meus olhos. Um brilho de quem sente, de quem sonha. Um brilho de criança. Eterna criança. E talvez fosse o meu tesouro. O que tanto temia perder. Que eu continue me perdendo e me buscando, sempre! E que junto comigo, eu descubra a cada abrir dos olhos um motivo para sorrir, para viver... ou quem sabe, para chorar. Que meu ar se escape devagarinho, que me brilho se vá de pouquinho em pouquinho... Porque existo e não posso fugir de um fim. Só desejo que eu me perca bem devagarinho; que eu me escape a cada dia só um pouquinho... Até o dia em que meus olhos se fechem para sempre; que meu ar totalmente partido de mim, esteja longe, espalhando o perfume das flores entre os que ainda caminham e minha alma se encontre calada, costurada, aberta e remendada. Até o dia em que eu me sinta uma garrafa completamente sem gás. Ou não sinta mais nada.
domingo, 2 de maio de 2010
Acredito em paixão à primeira vista, atração à primeira vista... mas amor, nunca. O amor, o verdadeiro amor, só existe depois de um certo cuidado, um certo regado de tempo em tempo. Não que ele não possa surgir de pouco nem em pouco tempo, mas não tente colher um amor verdadeiro plantado apenas com um olhar. E se tentar, conte-me depois quantos olhares ele foi capaz de durar.
Eu sou assim e eu não posso fugir de mim. Não posso fugir do que está escrito, do que está programado para mim ser. Sou inconstante e profunda mesmo que quieta. São poucos os que permito que me conheçam mais profundamente. A maioria me vê apenas como uma brisa a passar e que nem mesmo os cabelos sou capaz de fazê-los dançar. Mas não duvide que eu o possa fazer e de maneira tão intensa: a desconfiança me irrita e me impulsiona em demasia. Não achar a menor graça no que deveria me fazer rir. Não sentir o mínimo interesse possível no que certamente me interessaria. Sentir falta real do que me foi permitido apenas sentir, sonhar e imaginar... Tempo, sois o mesmo para mim e para os outros? Enquanto todos se preocupam em viver, intensamente, cada minuto das maneiras mais bizarras possíveis apenas para se lembrarem de que viveram, eu passo a maioria dos meus minutos quieta, viajando em mim e nas simplicidades do mundo, imaginando alguém... como se o meu tempo fosse infinito e eterno.
- Mas você tem que aproveitar mais.
- Quem lhe disse que não aproveito? Aproveito sim.
- Mas não sai para se divertir, para conhecer o mundo, as pessoas, aproveitar enquanto está nova.
- Não sabes o quanto eu me aproveito, não sabes o quanto é bom estar sozinha e em silêncio e me conhecer. Me ponho a perguntar-te então: quão interessante pode ser uma vida em que saias, divirtas, se "acabes", conheças pessoas demais, lugares demais e sequer conheças a ti mesmo? Porque é assim que muitos consideram viver. Chegam até mesmo a valorizar aqueles que sorriam a todo instante e cultivam milhares de amigos, como se não bastasse, desprezam a solidão. Ah, como eu gosto da solidão. Se é que assim a posso nomear. Solidão é se sentir sozinho e perdido. Sempre tenho a mim como companhia, e é glorioso conversar comigo mesma e conhecer um pedacinho novo de mim. Quanto ao perdido... minha lástima aos que nunca se perderam e precisaram se achar. - dei um leve e demorado suspiro enquanto uma borboleta pousava de leve sobre a minha mão, e sorrindo, continuei: Sem sombreamento de dúvidas... eu vivo! E se aparentemente sou nova, isso é apenas um detalhe. Cada idade carrega consigo suas alegrias e suas dores, cabe a cada um o proveito retirado delas.
- Mas você tem que aproveitar mais.
- Quem lhe disse que não aproveito? Aproveito sim.
- Mas não sai para se divertir, para conhecer o mundo, as pessoas, aproveitar enquanto está nova.
- Não sabes o quanto eu me aproveito, não sabes o quanto é bom estar sozinha e em silêncio e me conhecer. Me ponho a perguntar-te então: quão interessante pode ser uma vida em que saias, divirtas, se "acabes", conheças pessoas demais, lugares demais e sequer conheças a ti mesmo? Porque é assim que muitos consideram viver. Chegam até mesmo a valorizar aqueles que sorriam a todo instante e cultivam milhares de amigos, como se não bastasse, desprezam a solidão. Ah, como eu gosto da solidão. Se é que assim a posso nomear. Solidão é se sentir sozinho e perdido. Sempre tenho a mim como companhia, e é glorioso conversar comigo mesma e conhecer um pedacinho novo de mim. Quanto ao perdido... minha lástima aos que nunca se perderam e precisaram se achar. - dei um leve e demorado suspiro enquanto uma borboleta pousava de leve sobre a minha mão, e sorrindo, continuei: Sem sombreamento de dúvidas... eu vivo! E se aparentemente sou nova, isso é apenas um detalhe. Cada idade carrega consigo suas alegrias e suas dores, cabe a cada um o proveito retirado delas.
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