sábado, 8 de maio de 2010

Do que fomos só me restara o gosto amargo debaixo da língua como um comprimido que não se consegue engolir. Pensei que após a tempestade não restariam mais lembranças, mas ainda restara esse seu gosto que tantas vezes provara e insistira em torná-lo doce. Talvez mais um pouco de água misturada com tempo ajudava... Mas nem mesmo isso foi necessário: seu gosto foi entrando em mim pouco a pouco com a própria saliva que naturalmente eu insistia em engolir. Fez uma pausa rápida pela minha garganta e apertava, e puxava, e destroía. Coloquei minhas mãos sobre a garganta e engoli com força...
Seu gosto percorreu meu corpo, queimando cada lugar por onde passava, despertando em mim uma agonia quase que incontrolável. Me dobrei um pouco e com meus braços apertei um pouco sobre o meu estômago. A cada gemido, uma lágrima. Quanto mais eu apertava, mais doía. E encomodava. Ah, como encomodava... Talvez porque seu gosto tinha se localizado não no estômago, mas no coração. Tanta dor que já não era mais capaz de suportar. Com os olhos fixos ao chão, me joguei sobre a cama com a gota de força que ainda me restava.Com uma mão continuei apertando sobre meu estômago e com a outra segurava forte a fronha do travesseiro, a ponto de começar a rasgá-la -- é que tinha essa mania de fazer doer por fora para amenizar o que doía por dentro --, alimentando a ilusão de que minha dor passasse. A dor não passava nunca. Talvez ela não estivesse no estômago mesmo, mas no coração. Onde qualquer toque é vão. Em profundo delírio e um pouco fora de mim -- seu gosto viera como uma droga das mais destruídoras --, consegui me lembrar de que era março, tardezinha, o sol ainda se punha no horizonte... quando dei meu coração à ti. Sim, dei. E desde aquele momento não me deixaste em paz. Nem que seja com um simples e devastador gosto amargo que me queime internamente e inteira. Pude ver que viestes buscar o que um dia lhe prometi... Que sem palavras essa minha atitude! Como pude jurar minha vida à ti? Como pude entregar-te o que tanto necessito para continuar vivendo?
Ora, veja só eu... me pedindo explicações como se coubesse a mim tais decisões. Como se me fosse possível não entregar-me a ti. Já dissera antes que não podia mudar o que à mim era destinado. Acontece que também não podia suportar mais esse seu gosto. Foi então que apertei os olhos tentando afastar minha visão embaçada e para, assim, poder me avistar melhor no espelho da cabeceira da cama. E de repente, mais um impulso gritante pela urgência que em mim se criava: dei três palmadas em cima do peito enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas. Pronto. Me rendi. E enxugando meus olhos cansados com a ponta dos dedos trêmulos, os fechei pela última vez.

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