quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

laço eterno

     E então é assim. Pessoas entram e saem das nossas vidas todos os dias. Algumas permanecem por um período maior, mas também se vão um dia... Laços são desfeitos a todo momento. Amores eternos que duram meses. Amizades eternas que duram semanas. E é surpreendente a maneira como alguns laços se desfazem tão discretamente.
     Isso me lembra Larry, que partiu em silêncio. Não há nenhuma música que eu ouça e que me faça lembrar da nossa despedida. Não houve despedida. Repentinamente ele me apareceu e, da mesma forma, cruelmente, o perdi. Um descuido, quem sabe... Talvez o jeito misterioso de Larry escondia algum segredo que o impedia de criar laços. E quando viu que o estava fazendo, fugiu, antes que o laço se tornasse tão forte que não pudesse mais ser desfeito. Mas será mesmo que somos tão máximos a ponto de fazer laços, algum tempo depois desfazê-los e então fica tudo certo? Creio que não. Ou melhor, com toda a certeza do mundo, não.
     Detalhes são importantes e eu me esqueci do detalhe de que o laço que amarramos juntos nunca poderá ser desfeito. A cada dia que passa mais eu me acostumo com a companhia da sua falta. O que não quer
dizer que seja fácil para mim, muito pelo contrário. Me acostumar com a sua falta é apenas um método de sobrevivência que resolvi enfrentar. É o que me matém de olhos abertos, com as mãos quentes e com o coração pulsando, mesmo quando não se parece respirar mais. Em outras palavras, desde que o seu corpo se afastou do meu, não vivo mais, Larry. Mas lembra da maneira como nossas almas disseram sim uma para a outra? E lembra daquele dia na lagoa, em que pegamos o primeiro barco no escuro e seguimos remando em direção à estrela mais brilhante, tentando descobrir se a imensidão que havia entre as nossas almas era tão grande quanto à do céu? Hoje tenho a resposta: não há imensidão entre as nossas almas. O nosso laço amarrou uma na outra, e esse é o tipo de laço eterno.
     Escolhi que te deixaria livre e assim o farei até o meu último piscar de olhos. Laços eternos não precisam de corpos para existirem, mas de duas almas que se aceitam e se gostam verdadeiramente em alguma noite, numa lagoa, debaixo de um céu estrelado. Laços eternos não precisam de corpos, mas de duas almas que em algum momento gritaram tão alto uma pela outra, que o seu eco é capaz de perdurar para sempre.
Como o nosso há de perdurar. Para sempre. Para sempre...

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

El poeta

Ele segurava o bloco de papel na mão,
E rolava a caneta, impaciente, entre os dedos.
Eram reflexos do seu conturbado coração,
Os intensos olhos perdidos sabe Deus em qual direção.

Com as mãos tapando a boca
Moldurava o mais perfeito rosto de pensador.
Mas o trânsito engarrafado por dentro,
Mostrava que mais do que isso
Era um senti-dor.

Como uma descarga rápida de seu eu mais íntimo,
Sua mão rapidamente escreveu mais um verso;
Mas não era apenas um verso,
Era mais uma dose de remédio para a alma,
Para a vida...

Algumas palavras a mais
E o bloco foi então fechado,
A caneta guardada,
E os olhos agora concentrados em algo certo.
No bloco guardado na bolsa,
Apenas um embaralhado de palavras;
Um poema inacabado esperando pelo retoque final.

Algumas palavras a mais
E o bloco então foi fechado,
A caneta guardada,
E o trânsito, antes engarrafado por dentro,
Temporariamente liberado.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

convite para despertar



Eu te guardei no bolso esquerdo da calça, junto com todos os meus pedacinhos. Carreguei a calça comigo por dois anos que mais me pareceram séculos. Um dia adormeci e, por pura distração, deixei a calça no baú
ao lado. Quando o sol me ardeu os olhos, despertei. Olhei para o lado, não havia calça alguma. Corri para
a cozinha, onde minha mãe preparava o café e, desesperada, como quem tivesse perdido tudo, gritei:
- Mãe, onde está aquela calça que eu gosto? Eu a deixei ao lado da cama antes de dormir, não está mais lá.
Minha mãe se aproximou, me beijou a testa, sorriu e então disse:
- Minha filha, calma, era só uma calça. Você anda há tanto tempo com ela por perto e imaginei que estivesse suja. A coloquei para lavar.
- Mas você olhou os bolsos antes de lavá-la?
- Sim.
- Então onde está tudo o que estava nos bolsos?
- Está na primeira gaveta da sua cômoda, querida. 
Corri de volta para o quarto, abri a gaveta e, por cima dos livros, nada além de duas moedas e um papel já desgastado. Nada que me fizesse falta, caso lavado. Segurei aquilo com as mãos, me sentei na cama e respirei fundo. Por dentro, meu coração mais era um campo de batalha de sentimentos e minha cabeça pensava tanto e não pensava nada. Estava louca, mas não doía. Estava desesperada, mas com os pedaços perfeitamente colados. Incrível como você foi se desmanchando aos poucos junto com a sujeira que estava impregnada na calça. E mais incrível ainda, como você foi se desmanchando dentro de mim. Relaxei as mãos, deixei as moedas e o papel cairem e, enquanto faziam um pequeno ruído ao tocarem o chão, me joguei na cama. O sol me ardeu os olhos outra vez. E brilhou com uma luz que nunca brilhara antes. Não era incômodo, mas um convite em forma de luz. Um convite para algo que eu estava me desligando aos poucos. De repente me veio uma vontade de sorrir, de sentir, de amar, de viver... Me dei conta de que às vezes mantemos coisas que não nos são necessárias e que nos faz sentir quebrados em um milhão de pedacinhos presos dentro de um bolso. Acho que todos deveriam lavar as calças às vezes sem se preocupar muito com o que há dentro dos bolsos. Vai ver é só mais uma moeda ou um papel que um dia foi útil e hoje, apenas insignificante. Vai ver era mesmo só uma calça que estava suja e precisava ser lavada... De fato, fazia algum tempo que eu acordava me sentindo espatifada, quebrada em um milhão de pedaços, perto de não ser capaz de sentir mais nada. Mas naquele dia eu acordei completa e incrivelmente feliz.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

presente




Mas o que é isto? Um papel embrulhando o nada?  Mas ele sabia que eu tinha dessas coisas...
Procurou alguma pista. Encontrou uma carta no canto da caixa onde seguiu o embrulho. Segurou-a firme, olhou para o nada e então, após uma leve desconexão de tudo, resolveu lê-la: Este embrulho vai percorrendo cada centímetro da distância corporal que existe entre nós. Irá passar de mão em mão, mas de uma certa forma chegará das minhas às suas. E neste embrulho vai um presente estranho, simples e oculto, e espero que consiga fazer tua alma suspirar enquanto teus olhos se fechem sorrindo e teus lábios moldurem o mais perfeito sorriso. Seis anos se passaram e tão pouco lhe presentiei. Não foi por preguiça ou falta de dinheiro, nem mesmo por falta de tempo. Todos os presentes foram comprados, mas nunca enviados, porque nenhum nunca serviu. Porque nenhum era ideal o bastante para deslizar das minhas mãos e passar a ser seu. E eu sempre receei em guardar os presentes que lhe comprava e depois dizer sentir saudades e te amar muito. O que sempre foi verdade. E eu sorria toda vez que lembrava do seu rosto. Sorria toda vez que lembrava do tom da sua voz. Sorria toda vez que lembrava dos seus braços envolvidos em mim, me servindo de abrigo e proteção. Sorria toda vez que lembrava de você. E chorava em seguida, porque havia sempre uma necessidade nunca suprida. Neste embrulho estão todas as lágrimas, todos os sorrisos, todos os segundos desses longos seis anos. Pegue. Segure firme. Sinta. Porque era meu e agora lhe pertence. Porque eu precisava muito dividir todos esses anos regados à saudade contigo. Porque você sempre esteve cada segundo, cada momento junto de mim, então essas lágrimas também são suas e esses sorrisos também são seus. E junto deste embrulho vai parte da minha vida, parte de mim... Para que possas devorar e abastecer-se. Abastecer-se de amor. Porque sou toda tua e sou toda amor. Agora cheira o embrulho, por favor. Sentiu? Bom? Sabe, é cheiro de eternidade... Porque junto desta carta e deste embrulho vai ainda o para sempre que nunca deixou de ser possibilidade para nós. O seu presente então é esse: toda a minha vida e, não sendo bastante, toda a minha eternidade também.

terça-feira, 12 de outubro de 2010





Mas saiba que também já feri. E feri por não suportar a verdade que me estourava no peito em direção à boca. Feri por querer-te e querer-me verdadeiramente feliz. E por acreditar que não existe felicidade no quimérico, na mentira, na continuação tortuosa de uma ilusão.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

pedaço meu


A vida é feita de fases. Dia a dia. Tijolo a tijolo. Passo a passo. E nisso combino com a vida. Sou de fases. Ora uma, ora outra... várias. Mas várias de uma só. Tenho um corpo quieto que também segue a regra do dia a dia, tijolo a tijolo e passo a passo. Mas é movido por sensações, por sentimentos, por alma. E por ter esse combustível, às vezes quer ser ligeiro, correr contra o tempo, dar um passo longo demais. O que costuma me levar à queda e me atrasar um tijolo, um passo, um dia. Tenho essa mania de dona do meu mundo, essa impressão de pernas mais longas que o real e essa certeza de que vou dar conta sempre. Mas às vezes falho. Ou sempre... Ah se em mim aquietasse também essa pressa de viver... Essa vontade de abraçar o mundo e engolir a vida numa mordida só. Sou um pouco muito contraditória. Dia acordo morta, dia intensamente viva; ora harmonicamente flutuo com a música, ora prefiro indiscutivelmente o silêncio; as pessoas ora me dão prazer ora nojo; ora sou levada pelo medo, ora absurdamente impulsiva de tanta coragem... Mas, por favor, existe uma ponte enorme entre contradição e falsidade e que deve ser ressaltada. Se por um acaso me ver rir ou chorar, saiba que o faço com todos os músculos e todas as células que possuo. E o faço porque há a necessidade de fazê-lo. Só vou rir do que realmente me despertar vontade de rir e chorar do que realmente me ferir com alguma intensidade, seja
ela qual for. E para o meu silêncio e o meu não peço respeito, pois são, na maioria das vezes, palavras na ponta da língua ou um delicioso sim disfarçado, esperando apenas um pouco mais de vontade de quem os chama, um pouco mais de insistência de quem os espera. Porque às vezes dou um passo para trás por vontade própria. Para ver se o chão é seguro mesmo ou se é apenas mais uma armadilha no caminho da vida. Sem contar que sou mistério. Todos somos. E imensa... Ah, tão imensa que chego a me perder em mim mesma às vezes. Mas já tenho uma certa intimidade comigo mesma, e me encontro. Sempre me encontro.

prece

Coragem para eu suportar o aparentemente não suportável.
Coragem para eu fazer da dor apenas uma coadjuvante diante
de tanta alegria esperando pelo papel principal.
Coragem para eu dizer sim. Coragem para eu viver, meu Deus.

domingo, 5 de setembro de 2010

alma despida


Cada gota de chuva que cai sobre o meu corpo leva um pouco da casca que me protege e me deixa mais vulnerável, mais transparente. Só tenho medo da profundeza dessa transpareza. Dos lugares onde habitam os sentimentos mais secretos que ela pode revelar. Eu preciso do meu enigma, da minha pontinha de mistério para me ser.

sábado, 4 de setembro de 2010

(...) Mas teve uma noite em que você se recusou a ir lá. Mesmo sem saber que era para me inventar uma historinha como quando eu era criança. As lágrimas correram para os meus olhos com um gasto de apenas um segundo. Conversei mais rápido ainda com elas e consegui convencê-las de voltarem para onde vieram, mesmo que tivessem que se reproduzir e transbordarem em demasia  num momento futuro. Brotaram apenas duas lágrimas nos meus olhos: uma em cada olho. Dois poços de teimosia. Também pudera! olha só de quem tinham saído... Eu que sempre carregara uma pontinha de acidez, de gênio forte e teimosia. Perdoei-as, mas passei logo os dedos nos olhos para que sua teimosia não se transformasse em atrevimento e elas me escapassem pela face. Levemente me alegrei, porque minha mãe me havia recusado a vinda, mesmo sem saber para o quê. Disse que estava com alguma coisa no nariz que nem me preocupei em dar atenção, porque sabia que não se tratava de nada além de má vontade e preguiça de se levantar da cama quentinha num clima frio. Quão hipócrita eu seria se tivesse me revoltado quanto a isso. Não é que carrego má vontade comigo, mas uma preguiça que me enche e às vezes chega até a estourar. Já que minha mãe havia se recusado a ir até o meu quarto, me dar um beijo de boa noite e me inventar uma história - como fazia quando eu ainda era pequena -, resolvi inventar eu mesma a minha história. O beijo de boa noite me seria recompensado com uma leve cócegas aqui no meu peito, que me arrancaria um breve e profundo sorriso ao terminar a minha história. O boa noite eu desejaria aos pequenos pedacinhos da minha própria composição. Tanto corpo quanto alma dessa vez. Fiquei surpresa com a minha decisão de escrever a minha própria história. Dependência demais sufoca. Até se recusando minha mãe me ensinava algo. Conformada, girei metade de uma meia volta em direção ao meu quarto. Metade porque no meio do segundo ao fundo meu pai sussurrava alguma coisa. Voltei para ver o que era: ele pedira para que eu pegasse uma blusa para ele. Enquanto se acomodava, notei um grau de estresse no seu rosto sério e nos seus olhos nem um pouco relaxados. Dei um beijo em sua face e pedi para que se acalmasse. Por fim, consegui dar minha meia volta completa. Já estava atrasada para a minha história. Mas me havia esquecido de algo: era do beijo de minha mãe. Voltei e disse que ela não ganharia beijo, porque havia se prometido e depois se recusado a ir ao meu quarto antes de que eu adormecesse. A desculpa do nariz de novo. Agora sim: dei meia volta e segui rumo ao meu quarto. Meia volta que mais me pareceu uma volta inteira no meu imenso mundo. Refleti. Lá estava eu, agindo como eu agia quando era pequena, quando me negavam alguma guloseima. "Passado demais sufoca também, viu?!" Fiz questão de lembrar a mim mesma. Entrei no meu quarto. Me sentei. E aqui estou eu. Com a intenção de inventar uma história, tipo aquelas de Maria e Joãozinho que eram irmãos e iam passar as férias com a vovó no campo, como minha mãe me contava. Mas só me sai narração-descritiva de alguma coisa que me pesa aqui dentro. Só sai história de mim mesma. Mas, sabe, até que é bom. Gosto dessa liberdade de poder escrever o que quero e quando quero. Não tenho compromisso nenhum com ninguém além de mim mesma, e isso ajuda a aliviar. Ajuda a aliviar o peso dessa coisa que me pesa por dentro. Essa coisa sem nome, sem som e sem cheiro que convive comigo e nem me assusta mais. Agora com o peito um pouco mais leve até consigo sentir as cócegas, por dentro, que me compensam o beijo não sentido. Agora com a alma um pouco mais leve posso sentir a vida, esse substantivo complexo, carregado de magia. Dei um leve sorriso com os olhos fechados, como se estivesse em contato mais íntimo com o chamado interior e o superior que lá habita. E como se no silêncio de um segundo, agradecesse por tudo. "-Ai" - mais uma cosquinha aqui de lado. Acho que a história tem uma reticências aqui. Porque o ponto é um limitante de histórias que nunca se acabam verdadeiramente. Sempre tem um pó esquecido em algum cantinho, um cisco escondido nas entrelinhas ou até mesmo um gran finale que se perdeu em meio aos pensamentos rápidos. Então, boa noite...!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

coragem algemada

Lambuso de água o rosto. Me encaro no espelho. Quantas fotos por trás desses olhos, meu Deus, nunca reveladas. E essas lágrimas secas, relembrando recomeços infinitos. Desço do salto, me jogo na cama, ligo a TV. Mais uma criança terrivelmente assassinada, por alguém que precisa de salto pra alma, suponho. Desligo a TV. Ligo novamente em mim, em algum canal falho, de zoeira insuportável, precisando de antena. Mas não quero antena. Desligo-me de tudo. Flutuo no nada. É então que você aparece, invade o meu quarto, pergunta se está tudo bem. Meus olhos me entregam: preciso de reparo. (mas se me amas, não me repare. me abrace, me beija, me toma em seus braços com o dobro do peso, pois me segure também à alma. mas me queira assim, faltosa, meio torta, sem reparo algum.) E você lê meu olhar, me abraça como quem não quer nada, aos poucos me toma em seus braços, me aperta, me beija, me abriga, me tem. E deixa sua voz solta pelo ar, dizendo que sou apenas uma alma tentando se costurar, mas que, por tentar, acabou furando o dedo com a agulha. A agulha é o mundo e eu com medo do mundo. O que é verdade. Sinto que estou sempre de malas prontas e nunca pronta para partir.

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